Soberania ou subordinação: o chamado do Terceiro Congresso Pan-Americano de Montevidéu e uma agenda progressista para as Américas
Há momentos em que reunir-se é, por si só, um ato político. O Terceiro Congresso Pan-Americano, realizado em Montevidéu entre 21 e 23 de agosto, foi um desses momentos. Mais de 150 participantes de 15 países das Américas encontraram-se no Uruguai para dar continuidade a um processo iniciado em Bogotá, em 2024, e aprofundado na Cidade do México, em 2025. Parlamentares, dirigentes políticos, representantes de governos, movimentos sociais, intelectuais e organizações da sociedade civil reuniram-se não apenas para diagnosticar as crises que atravessam o continente, mas para construir uma agenda comum capaz de enfrentá-las. O próprio Congresso nasceu com essa vocação: criar uma comunidade política hemisférica, construir uma visão compartilhada e identificar caminhos concretos de cooperação baseados no diálogo, na diplomacia e na igualdade soberana.
A escolha de Montevidéu teve um significado especial. Sob a presidência de Yamandú Orsi e com o retorno da Frente Ampla ao governo, o Uruguai representa hoje uma experiência de renovação democrática em uma região na qual as forças progressistas enfrentam uma conjuntura particularmente adversa. A tradição democrática uruguaia, seu compromisso histórico com os direitos humanos e a integração regional e o legado político de Pepe Mujica fizeram do país um lugar particularmente simbólico para esse reencontro.
O Congresso ocorreu, sobretudo, em um momento de inflexão geopolítica. O sistema multilateral atravessa uma de suas crises mais profundas desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A emergência climática se acelera, as migrações forçadas aumentam, o custo de vida pressiona as famílias trabalhadoras, o crime organizado desafia a capacidade dos Estados e a revolução tecnológica cria novas formas de concentração de riqueza, poder e dependência. Ao mesmo tempo, multiplicam-se mecanismos de coerção econômica, judicial e diplomática, tentativas de ingerência eleitoral e ataques ao multilateralismo.
Para as forças progressistas latino-americanas, essa transformação internacional coincide com uma mudança desfavorável na correlação política regional. A extrema direita deixou de ser um fenômeno episódico para articular-se como projeto transnacional. O governo de Javier Milei, na Argentina, transformou a “motosserra” em símbolo de uma agenda que combina destruição das capacidades públicas, austeridade e radicalização política; experiências semelhantes ganham terreno em outros países.
É nesse cenário que a eleição presidencial brasileira de outubro adquire uma dimensão que ultrapassa amplamente as fronteiras nacionais. A reeleição de Lula não interessa apenas ao Brasil. Ela será determinante para a correlação de forças em toda a América Latina e para a própria possibilidade de reconstrução de um campo democrático, progressista e soberanista nas Américas.
O Brasil é hoje um dos poucos países com dimensão econômica, política e diplomática suficiente para sustentar uma agenda alternativa à fragmentação regional. Sob a liderança de Lula, retomou políticas sociais, reativou instrumentos de desenvolvimento e política industrial e recolocou no centro da política externa brasileira o multilateralismo, a integração regional, o combate à fome, a defesa da paz e a autonomia internacional. Essa reconstrução interna projeta o protagonismo externo, mas também alerta........
