O pré-sal cultural que o Brasil não explora
Há uma cena que se repete a cada quatro anos, longe do Brasil e indiferente a ele. Em Daca, capital de Bangladesh, bandeiras verde-amarelas de setenta metros descem pelas fachadas de prédios inteiros. Em Kerala, no extremo sul da Índia, torcedores erguem recortes gigantes de Neymar dentro de rios, com dezenas de metros de altura. Em Beirute, ruas inteiras se declaram "do Brasil" e improvisam telões para assistir aos jogos. Nenhum desses três povos jamais disputou uma Copa do Mundo. Nenhum deles tem qualquer tradição futebolística própria. E, no caso de Bangladesh e da Índia, não há sequer um fio de imigração que nos ligue a eles.
Estamos diante de um ativo geopolítico que poucos países do mundo possuem e que o Brasil, com a indiferença de quem é rico demais para contar o que tem, deixou parado.
Vale entender de onde isso veio, porque a origem é mais reveladora do que parece. O encantamento por Brasil e Argentina nasceu nos anos 1980, quando a televisão em cores chegou ao Sul da Ásia e ao mundo árabe e coincidiu com Pelé ainda fresco na memória e com o Maradona de 1986. O futebol foi apenas o veículo. O que se fixou foi outra coisa: a imagem de um país alegre, popular, mestiço e vitorioso, com a qual nações pobres e recém-saídas do jugo colonial se identificaram de imediato. Em Bangladesh, dizem com todas as letras que torcem pelo Brasil porque "o Brasil se parece conosco". No Líbano, a paixão tem raiz mais funda, porque a........
