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Qual Gabriel Galípolo está no Banco Central?

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21.08.2026

Há uma pergunta incômoda no centro da política monetária brasileira: qual Gabriel Galípolo chegou à presidência do Banco Central? O economista que estudou profecias autorrealizáveis, afirmou que expectativas formam a realidade, criticou juros de 14,25% e defendeu que o Estado conduzisse o desenvolvimento? Ou o dirigente que passou a justificar uma Selic fortemente restritiva com a linguagem convencional das expectativas desancoradas, do pleno emprego e da demanda acima da oferta?

A pergunta não é retórica, nem pretende transformar divergência econômica em julgamento moral. Pessoas mudam de opinião. Instituições também impõem limites a quem as dirige. Mas, quando um intelectual assume uma das funções públicas mais poderosas do país, sua trajetória deixa de ser apenas biográfica. Ela se torna uma referência legítima para avaliar as escolhas que faz no poder.

No caso de Galípolo, a comparação é especialmente reveladora porque sua produção anterior oferece as ferramentas para interrogar a política que ele próprio conduz hoje.

Em sua dissertação de mestrado na PUC-SP, apresentada em 2008, Galípolo descreveu uma “profecia que se autocumpre”. O mecanismo era claro: credores passam a considerar determinado país mais arriscado; a percepção de risco eleva o custo do crédito; o crédito mais caro reduz o investimento e a disponibilidade de divisas; ao final, a economia pode produzir a insolvência que os credores temiam no início. A expectativa não aparece como fotografia neutra do futuro. Ela participa da construção desse futuro.1

Naquele mesmo ano, em artigo escrito com Paulo Gala e Danilo Fernandes, aparecem as expressões “mecanismos self-reinforcing” e “expectativas adaptativas”. Percepções produzem crenças; crenças ajudam a formar instituições; instituições moldam comportamentos e resultados; os resultados, por sua vez, reforçam a percepção inicial. É um processo circular, não uma sequência em que o mercado simplesmente descobre uma realidade pronta.2

Galípolo retornou várias vezes a essa ideia. Em conversa com Paulo Gala e José Marcio Rego, depois reproduzida pela Folha de S.Paulo, resumiu o ponto numa frase rara pela clareza: “Na economia, as apostas são os próprios resultados”.3 Em março de 2023, durante o debate do arcabouço fiscal, usou literalmente a expressão “anticiclicidade por reflexividade”.4 Dois meses depois, afirmou: “As expectativas das pessoas […] influenciam preços e formam a realidade”.5

Nem mesmo sua chegada ao comando do BC apagou inteiramente esse vocabulário. Em março de 2025, Galípolo disse que a política monetária “tem uma reflexividade”, porque os agentes reagem à comunicação, às observações e às decisões da autoridade monetária.6 A constatação é correta. Um banco central não se limita a responder ao mercado; ele também altera o ambiente ao qual o mercado responde.

Há, ainda, uma referência expressa a George Soros no livro Manda quem pode, obedece quem tem prejuízo, escrito por Galípolo e Luiz Gonzaga Belluzzo.7 É preciso ser preciso aqui: citar Soros não prova adesão integral à sua teoria da reflexividade. Mas demonstra conhecimento do autor e se encaixa numa produção intelectual marcada pela ideia de que........

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