No 2º Turno: Lula ou o abismo bolsonarista
O resultado do primeiro turno da eleição revelou uma faceta trágica e perigosa de parcela significativa dos brasileiros. Ficou exposta a cegueira voluntária, a submissão cega e a adesão passiva de parte de eleitores capturada por bolhas de desinformação, disposta a votar contra os próprios direitos e a entregar o destino do país a um projeto autoritário que não atende a seus próprios interesses.
Trata-se de uma parcela da população anestesiada e manipulada por algoritmos e pela desinformação articulada, impulsionada pelas Big Techs, que monetizam o ódio e o alarde nas redes sociais, em convergência com setores da mídia corporativa. Mecanismos que contribuem para preservar os privilégios dos segmentos hegemônicos, desmantelar direitos sociais e legitimar a submissão do país aos interesses econômicos de um império em agonia, sob a liderança de um presidente rechaçado pela a maioria da população norte-americana. A rejeição popular a Trump evidencia as incongruências de seu projeto de poder. Seu índice de desaprovação está entre 65% e 67%. Este dado denuncia o desgaste de uma política baseada na prepotência, no autoritarismo, na transferência dos custos de suas decisões para as maiorias e na velha pretensão de transformar os países da América Latina em seus territórios subalternos.
Neste sentido, eleger Flávio Bolsonaro significará entregar o país diretamente às mãos de Trump. A concretização dessa submissão deixaria marcas profundas e duradouras, comprometendo a autonomia do Brasil em todas as esferas e abrindo caminho para uma dependência estrutural cuja reversão imporia enormes dificuldades às próximas gerações.
Votar em um candidato obscuro sob vários aspectos pessoais e políticos, mentiroso contumaz, cujas promessas se sustentam no cinismo e na falsificação da verdade, é endossar a própria ruína e assinar a sentença do retrocesso do país. É escolher a farsa em detrimento dos fatos e entregar o Estado de Direito a quem faz da mentira sistemática o seu método de atuação política. Quem se deixa enganar pela ilusão de renovação, seja a classe média munida de ignorância e arrogância pelo falso pertencimento ao núcleo dos privilegiados, seja a parcela empobrecida e cooptada pelo ressentimento, que repete de modo atônito acusações vazias contra o presidente Lula, pagará essa conta na própria carne, sacrificando o futuro da democracia em nome de uma mudança torpe e catastrófica.
Conforme análises do cenário eleitoral divulgadas por veículos como a revista Carta Capital, o apoio das pequenas cidades e do interior do país foi determinante para que Flávio Bolsonaro (PL) mantivesse a liderança no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Nas cidades do interior de diversos estados, a menor adesão eleitoral ao presidente Lula encontra sua principal explicação na dinâmica comportamental da classe média baixa, denominada classe C, um contingente populacional que ascendeu da pobreza nas últimas décadas graças às políticas públicas de transferência de renda, valorização do salário mínimo e expansão do crédito promovidas pelos próprios governos progressistas.
Esse fenômeno social expõe o processo de consolidação de uma nova subjetividade de classe. Ao migrar da vulnerabilidade para a classe média baixa, o indivíduo altera sua régua de comparação e seu horizonte de expectativas. Abandona a pauta da mera subsistência e passa a demandar bens e serviços tipicamente associados à autonomia individual. Ocorre, contudo, um descompasso de percepção, pois ao estabilizar sua posição material, essa........
