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Quando não conseguimos ver a dor do outro. Opinião da advogada Rita Garcia Pereira

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29.09.2026

Há quem viva escondido a vida inteira Domingo sabe de cor, o que vai dizer Segunda-feira  

Deixa-me Rir, Jorge Palma  

Há uma coisa estranha no sofrimento humano: quase todos sabemos o que é sofrer, mas isso não significa que saibamos reconhecer o sofrimento dos outros. 

Na verdade, conhecemos a nossa própria dor, ou seja, sabemos o que é uma noite sem sono, a angústia de uma perda, o medo de uma doença ou aquele momento em que percebemos que alguma coisa dentro de nós mudou. Contudo, quando olhamos para o sofrimento de outra pessoa, tudo se torna mais difícil. 

Nesta altura, precisamos de explicações, por vezes procuramos causas, sinais, comportamentos que nos permitam compreender aquilo que estamos a ver. Ora, quando não encontramos uma explicação que julgamos para nós mesmos satisfatória, recorremos muitas vezes ao julgamento (“Mas ela tinha tudo.”; “Podia ter pedido ajuda.”; “Há pessoas em situações muito piores.”; “Não se percebe como alguém pode chegar a esse ponto.”). Todas estas frases são ouvidas com frequência, algumas nascendo da indignação, outras da perplexidade e outras ainda de uma tentativa sincera de compreender. O problema é que nenhuma delas nos dá acesso àquilo que verdadeiramente importa: a experiência interior de quem sofre. 

É essa dificuldade que, de maneiras muito diferentes, os casos de Arnaud Denis e Lindsay Clancy nos colocam diante dos olhos. É certo que não são histórias equivalentes, nem podem ser colocadas no mesmo plano. Num caso, encontramos um homem que, depois de anos de doença, dor e perda de autonomia, decidiu recorrer à eutanásia na Bélgica. No outro, uma mulher acusada de matar os três filhos, cuja defesa sustenta que sofria de uma perturbação psiquiátrica grave e que, no momento dos acontecimentos, não tinha uma perceção adequada da realidade. 

Há entre os dois casos uma distância enorme. Porém, ambos nos confrontam com uma questão difícil: até onde conseguimos compreender um sofrimento que não sentimos e que, muitas vezes, não conseguimos sequer ver e que não aparece no corpo?  

É verdade que,........

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