Opinião | Orwellianos são os outros
Qualquer apreciador de distopias concebe como estruturantes, pelo menos, duas obras: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell. Não obstante a qualidade comparável ou até, atrevo-me, superior da primeira, a segunda colhe muito mais sucesso. Bastante difundida em tempos de Guerra Fria e até hoje altamente comercializada, viu um dos seus principais conceitos homenageados no célebre reality show Big Brother e já se converteu em novela gráfica, filme… e ainda arma de arremesso.
Não seria excessivo constatar que orwelliano é um epíteto comum no debate político hodierno. Em Portugal, é especialmente mobilizado por um setor amplo e transpartidário da direita, que o retira convenientemente da algibeira a qualquer sinal de esforço de regulação ou política mais ou menos de esquerda. Regular as redes sociais? Orwelliano. Aumentar a participação do Estado num dos setores estratégicos nacionais? Vem aí o Grande Irmão. Averiguar casos evidentes de racismo ou misoginia no Twitter/X ou noutras redes sociais? Lá estão eles a limitar a liberdade de expressão. O 1984 previu isto. Ironia histórica ou não, o certo é que Orwell viveu filiado à tradição socialista, ainda que fosse revendo periodicamente algumas posições.
É verdade que as distopias, enquanto exercícios de imaginação crítica do futuro, são sempre........
