Ucrânia, quatro anos depois: A guerra que se tornou uma época
Numa madrugada gelada em Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, uma professora reformada dorme de casaco vestido, pronta a descer para o abrigo ao primeiro som de sirene. Quatro anos após a invasão em larga escala, a guerra deixou de ser um choque e tornou-se um estado contínuo. E, quando a guerra se instala como rotina, a política ajusta-se a ela em vez de a resolver. Essa é a vitória mais silenciosa do conflito: não conquistar territórios, mas normalizar a guerra.
O campo de batalha estabilizou numa lógica de desgaste: avanços mínimos, perdas humanas massivas e linhas que se movem em quilómetros ao longo de meses. A frente permanece fluida taticamente, mas congelada estrategicamente — como sublinhou o Financial Times — num equilíbrio que impede tanto a derrota ucraniana como a vitória russa. Não é estabilidade; é exaustão organizada.
O impasse é, sobretudo, político. Kiev não pode aceitar concessões territoriais sem comprometer a sua própria sobrevivência como Estado soberano; Moscovo dificilmente aceitará negociações sem ganhos que justifiquem internamente o custo humano e económico da guerra. Entre estas duas impossibilidades, o conflito tornou-se estruturalmente insolúvel: qualquer solução realista é simultaneamente inaceitável para ambos. A guerra continua porque terminar, nas condições atuais, é politicamente mais arriscado do que prosseguir.
O impacto decisivo destes quatro anos mede-se na........
