Entre o medo e a memória
Há momentos na vida democrática de um país em que a escolha não é apenas política. É moral.
A segunda volta das eleições presidenciais aproxima-se e, com ela, um debate que voltou a ocupar o centro do espaço público: a imigração. Não porque seja um fenómeno novo ou inesperado, mas porque o medo, quando bem explorado, continua a ser uma das ferramentas mais eficazes para mobilizar ressentimentos e silenciar consciências.
O que hoje se discute em Portugal já não é apenas como gerir fluxos migratórios ou como tornar o Estado mais eficiente. Discute-se que tipo de país queremos ser. Um país fiel à sua história, à sua memória e aos seus valores, ou um país que cede ao ruído do ódio e à tentação do ostracismo.
A decisão do Estado português de pagar cerca de 8 milhões de euros para não receber refugiados é um símbolo poderoso dessa encruzilhada. Não é um mero detalhe orçamental. É uma escolha política carregada de significado. Num tempo em que o mundo enfrenta crises humanitárias profundas, Portugal escolheu afastar-se — enquanto continua a proclamar, nos discursos e nos textos legais, um humanismo que já não encontra correspondência nos atos.
Essa contradição não é inocente. Ela revela uma aproximação perigosa à agenda do Chega, que transformou a imigração numa narrativa de ameaça permanente. Ao invés de combater esse discurso com políticas responsáveis e humanas, o Governo tem vindo a ceder-lhe, normalizando ideias que há poucos anos seriam impensáveis no espaço democrático português.
Mas as consequências mais graves dessa cedência não se veem apenas nos........
