As tendas nas praças e a Desobediência Civil de Thoreau: quando a lei tem casa e a justiça dorme na rua
Portugal acordou esta terça-feira, 20 de outubro de 2026, com as praças novamente arrumadas, as tendas desmontadas, 55 manifestantes detidos no Rossio e a ordem pública, segundo a versão oficial, restabelecida. Uma operação de limpeza cívica, poderíamos dizer, não fosse a expressão demasiado reveladora. Limpou-se o espaço público, retiraram-se os colchões, dobraram-se as lonas, desmontaram-se as tendas e afastaram-se os protestos. Quanto ao problema que levou aquelas pessoas a dormir ao relento, esse ficou exatamente onde estava. Não consta que a Polícia de Segurança Pública tenha meios para remover a especulação imobiliária, baixar as rendas ou tornar os salários compatíveis com o preço de um T1 em Lisboa ou no Porto. Seria pedir demasiado a uma força policial. Mas talvez também seja pedir demasiado aos cidadãos que continuem a comportar-se como se nada estivesse a acontecer.
A chamada Acampada de Lisboa, instalada no Rossio desde sábado, e a ocupação da Praça D. João I, no Porto, iniciada a 10 de outubro, transformaram dois espaços emblemáticos das nossas cidades em lugares de protesto pelo direito à habitação. O lema lisboeta tinha a simplicidade e a eficácia de uma boa campanha publicitária: “Não dá mais? Então monta a tua tenda!” Não se tratava, evidentemente, de promover o campismo urbano, embora, a julgar pelo mercado imobiliário português, talvez já não falte muito para uma tenda com vista para o Tejo aparecer anunciada como experiência residencial alternativa, com renda de 750 euros, caução de três meses e despesas não incluídas. Outra possibilidade seria mudar de armas e bagagens para uma roulotte no Parque de Campismo de Monsanto, acordar com os ares da floresta e chamar-lhe qualidade de vida. Pelo menos, enquanto não aparecer uma imobiliária a vender lotes de pinhal como condomínios ecológicos de luxo.
Pouco antes das seis da manhã, a PSP avançou para a desocupação. Em Lisboa, os manifestantes formaram cordões humanos, resistiram à retirada e dezenas acabaram detidos por alegada desobediência. A polícia justificou a intervenção com a ocupação irregular do espaço público, a permanência para além dos limites legais e a necessidade de fazer cumprir as ordens transmitidas. Os ativistas denunciaram violência e utilização excessiva da força. No Porto, perante o ultimato policial, os participantes optaram por desmontar as tendas, evitando detenções. Duas respostas diferentes ao mesmo problema, com uma questão comum: será possível resolver uma crise social através da reposição da normalidade administrativa?
Thoreau, o homem que preferiu uma cela à obediência
Em julho de 1846, um escritor norte-americano chamado Henry David Thoreau (1817-1862) passou uma noite na prisão de Concord, no Massachusetts, por se recusar a pagar um imposto. Não estava propriamente a protestar contra as Finanças da época, embora esse motivo provavelmente lhe tivesse garantido uma considerável........
