A próxima rodada
Há perguntas que parecem banais, mas que, quando paramos verdadeiramente para pensar nelas, carregam uma vida inteira. Esta pode ser apenas uma provocação entre amigos que há muito não se veem, um convite para um copo, uma lembrança de outros tempos. Mas, aos 60 anos, ganha outro peso. Há quanto tempo não me sento à mesa com aquele amigo com quem tantas vezes partilhei histórias, risos, preocupações e sonhos? Há quanto tempo não telefono simplesmente porque sim, sem precisar de uma razão ou de uma ocasião especial? E quantas vezes disse “temos de combinar qualquer coisa” sabendo, no fundo, que continuaria a adiar?
Durante grande parte da vida, a amizade acontece quase sem esforço. Na adolescência, temos a escola, o bairro, o futebol, a música, as primeiras noites fora de casa. Na universidade, encontramos pessoas com quem partilhamos uma fase de descoberta e liberdade. Mais tarde, o trabalho cria novos grupos, novas cumplicidades e, por vezes, amizades que julgamos destinadas a durar para sempre. Estamos juntos porque a vida nos coloca juntos. Não precisamos de grandes planos para nos vermos, basta sair das aulas, acabar o trabalho ou combinar qualquer coisa para aquela noite. A proximidade faz grande parte do trabalho que, mais tarde, já ninguém faz por nós.
Depois, a vida acelera. No meu caso, uma vida profissional muito intensa, mudanças de emprego, mudanças de país, viagens e responsabilidades de liderança foram criando, sem que me apercebesse, uma distância crescente em relação a muitas pessoas que fizeram parte da minha vida. Não houve zangas nem ruturas. Houve simplesmente uma sucessão de prioridades, o trabalho ocupava mais espaço, a família exigia tempo, surgiam novos desafios, construía novas rotinas. Entretanto, os amigos de sempre ficavam lá atrás, muitas vezes apenas a uma mensagem de distância, mas uma mensagem que acabava por nunca ser enviada.
É curioso como podemos passar anos rodeados de pessoas e, ainda assim, ir ficando progressivamente mais sós. Podemos ter uma agenda cheia de reuniões, viagens e eventos, conhecer muita gente e ser conhecidos por muita gente, e mesmo assim não ter alguém a quem telefonar numa noite qualquer e dizer, “Estás por aí? Vamos beber um copo?” A vida profissional pode, aliás, criar uma distância adicional. Quando assumimos posições de liderança, estamos permanentemente rodeados de........
