Inventário do Eclipse: Identidade suspensa, pela escritora Filipa Mota Nesbitt
Maria passou 65 anos da sua vida como a Lua. Com todas as suas fases. Iluminada como uma lua cheia, apagada como uma lua nova, crescente como uma avó e minguante como uma filha sem mãe.
Sempre inteira, embora quebrada nos pedaços da vida que colava a cola quente, que fervia nos dedos, mas era mais eficaz no tempo, esse amigo do Diabo que corre depressa de mais, esfola profundo e demora na cura, na crosta, na ferida.
Maria era uma mulher-sombra de um astro maior e sempre de resposta pronta, o corpo entregue às balas e as mangas arregaçadas às vontades sociais da porta trancada, casa limpa, roupa lavada, cabelo aprumado, lábios discretos e saia comprida. Um rancho de filhos e o cumprimento exímio dos deveres amorosos de número singular e género oposto. Em quarto nunca só seu, em vontades próprias não pronunciadas e em grito submisso, de quem aceitava o que a vida oferecia, nem sempre plena de graça.
Uma voz silenciada por outros e pelos monstros que a habitavam no medo que lhe corroía os neurónios e outras células boas que lutavam para se multiplicar, e que, Maria insistia, não precisavam de vencer. Já não. Maria não suportava mais as repetições das falas inconstantes das suas personagens e dos duelos sem sentido de direção. Das quedas iminentes e das descidas íngremes ao calvário. Era uma luta diária fecundada nas primeiras estrelas cadentes, luzes brilhantes que aterraram em terra de ninguém, sem........
