A vida fora funciona, mas no Brasil ela pulsa
Ciclista, vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico, economista pela USP e pesquisador do Insper. Foi visiting scholar nas universidades de Columbia e Stanford
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A vida fora funciona, mas no Brasil ela pulsa
O planeta gira, as rotinas se cumprem, contudo, o peito cobra
E, ao sul do Atlântico, há um lugar em que a alma vibra mais forte
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Em muitos países ricos, existe um acordo tácito que costuma ser respeitado. Os horários são cumpridos. O imposto pago retorna. E a vida? Olha... a vida funciona tão bem. E funciona de uma forma que gosto. Funciona como uma espécie de máquina bem calibrada.
Tudo é previsível. As pessoas são previsíveis. Aqui no Vale do Silício, até os esquilos que sobem e descem das árvores parecem previsíveis. O cidadão atravessa a rua. Então, o carro vai lá e para. O carro também não tenta atropelar os ciclistas a todo momento. Existe um conforto em tudo isso. Existe uma previsibilidade que abraça.
Porém, aí, do lado do Atlântico, a vida não funciona como uma engrenagem. Ela funciona mais como uma espécie de zabumba. Aí é um lugarzinho no qual a vida pulsa. E pulsa forte. Pulsa na alegria do brasileiro, na magia da música ressoando pela atmosfera e no vendedor que grita a própria sobrevivência.
Pulsa nas espontâneas rodas de samba e pulsa como uma roda de samba no fundo do próprio peito. Pulsa porque sentimos e expressamos. E possivelmente sentimos e expressamos de uma forma que não é sentida e expressa em nenhum outro lugar do planeta.
Penso que existe algo curiosamente desmedido nesse sentir. Algo que cansa, porém, que ao mesmo tempo, preenche. Porque sentir demais dói. Embora sentir pouco seja quase não estar. E o brasileiro prefere estar.
Em todo lugar do mundo, somos facilmente reconhecidos pelos abraços fortes que damos uns nos outros, pela vibração de nossas conversas, pela quantidade de banhos que tomamos e pelos sorrisos largos e gentis que espalhamos. O brasileiro é, simplesmente, lindo. É relativamente aberto ao outro, mesmo quando carrega diversos preconceitos e um elitismo que ainda precisam ser enfrentados.
Não sei se parte disso deriva do fato de que enquanto em alguns lugares a vida simplesmente cumpre um protocolo, o brasileiro tem seu jeitinho de fazer a vida atravessar o protocolo.
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Porém, veja. Não estou aqui querendo menosprezar o que funciona. Existe muita coisa boa em um sistema que cumpre o que promete. Existe uma beleza em uma engrenagem que não costuma falhar. Porque funcionar é legal. Contudo, também é um pouco contido. Como um doce sorriso que não se permite gargalhar.
E há muitos lugares em que falta essa gargalhada. Falta o risco do encontro inesperado. Falta alguém que, sem perceber, conte a própria vida em dez minutos e convide você para entrar nela. No Brasil, existe essa forma singular de viver. Porém, muita coisa falha. O imposto nem sempre volta. O país é lindo, com suas pessoas lindas, mas ainda enfrenta muita violência. Mesmo assim, existe algo a mais que insiste em bater. E bate em um ritmo que não se deixa domesticar totalmente. Um modo de existir que, mesmo sob contextos adversos, encontra brechas para seguir pulsando. Talvez seja dessa indomável pulsação que venha uma das maiores riquezas.
E, antes de acabar, quero deixar bem claro que entre a eficiência e o descompasso, entre a ordem e o improviso, existe um lugar ao Sul do Atlântico que tropeça, canta, cai, levanta, ri alto e segue. E que me parece que o ideal fosse uma vida que funcionasse e pulsasse ao mesmo tempo. Assim, no fundo, meu real sonho é unir as duas coisas. Um Brasil que funcione sem deixar de pulsar. Uma espécie de máquina que funcione para todos, mas mantendo seu grande coração.
O texto é uma homenagem à música "Asa Branca", interpretada pelo Gilberto Gil.
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