O Brasil que vai a votos sem se reconhecer
Nelson Rodrigues, dramaturgo e provocador profissional, deixou-nos uma frase que lhe é atribuída com a frequência com que se atribui a Oscar Wilde tudo o que é demasiado bom para não ter autor: «O Brasil é muito impopular no Brasil». É uma frase que parece um paradoxo, mas é apenas uma descrição. Um país que durante cinco séculos construiu identidade a partir da pluralidade, que misturou raças e culturas com uma naturalidade que o Ocidente nunca conseguiu replicar, que fez da tolerância quase uma filosofia de vida, chegou ao século XXI em conflito profundo consigo próprio. Não que a polarização seja inesperada nos seus mecanismos políticos. É apenas estranha à natureza deste país, e é essa estranheza que torna tudo mais difícil de resolver.
Em Outubro de 2026, o Brasil regressa às urnas com Lula em desgaste, sem Bolsonaro no boletim de voto, mas com o bolsonarismo em versão ‘herança de papai’, e sem qualquer solução equilibrada que permita ver pelas costas a profunda divisão da sociedade brasileira. Para perceber por que a ferida aberta dificilmente cicatrizará antes das eleições é preciso perceber o que está por baixo. E o que está por baixo é um ‘balaio de gato’, ou seja, uma mistura confusa de coisas.
O Brasil é uma das sociedades mais desiguais do mundo. Com um coeficiente de Gini acima dos 50 pontos, enquanto Portugal está nos 30 e a média europeia fica ligeiramente abaixo, o país carrega uma concentração de património e rendimentos que não são estatísticas abstratas: são uma realidade objetiva de violência silenciosa. O 1% mais rico concentra mais de 28% dos rendimentos brasileiros. O Sul e o Sudeste têm rendimentos médios que chegam ao dobro dos do Nordeste. São Paulo e o Ceará não são apenas Estados longínquos, são mundos com séculos de distância entre si. Esta desigualdade tem raízes na escravatura, no modelo colonial e numa urbanização acelerada que nunca distribuiu os seus frutos, e é ela que explica a lealdade eleitoral ao PT que, mesmo com vinte anos de governação, de escândalos e de crise económica, não conseguiram apagar. Quem saiu da miséria nos ‘anos Lula’ não se esquece facilmente de quem o ajudou, porque a gratidão ainda é uma das emoções mais duradouras na política. O problema é que a outra metade do país, a que não beneficiou diretamente dessas políticas ou que sentiu ter pago a conta sem direito a voto na matéria, acumulou um ressentimento simétrico. E foi esse ressentimento que Bolsonaro soube ler, capitalizar e transformar em movimento.
O que ninguém conseguiu prever com suficiente competência foi o papel da religião no jogo eleitoral. Em 1970, 92% dos brasileiros eram católicos, mas em 2022, a data do último Censo, eram apenas 52%. Os evangélicos, que eram 22% da população há quinze anos, são hoje 31%, perto de 70 milhões de pessoas organizadas em comunidades com uma coesão política que os partidos tradicionais nunca conseguiram replicar. A igreja evangélica brasileira não é propriamente o protestantismo histórico do norte da Europa. É uma religião emocional e comunitária, vivida intensamente no bairro e amplificada por redes pastorais com dezenas de milhões de membros, com uma agenda moral muito definida e uma desconfiança profunda do Estado laico e dos meios de comunicação social tradicionais. Em 2022, mais de 70% dos evangélicos votou em Bolsonaro. Não foi manipulação, foi uma convergência genuína de valores, de linguagem e de identidade. Bolsonaro não criou este eleitorado, revelou-o. E é por isso que a sua inelegibilidade retirou ao campo conservador o catalisador mais eficaz, mas não lhe retirou a voz. Este campo político tem candidatos, tem base motivada e tem um argumento que ressoa em dezenas de milhões de lares. O bolsonarismo sem Bolsonaro é mais difuso, mais difícil de derrotar e, paradoxalmente, poderá até vir a ser mais duradouro.
E assim chegamos a 2026 num impasse que as sondagens descrevem com uma precisão desconfortável. Na sondagem de Abril, a Quaest, um dos mais reputados institutos de pesquisa do Brasil, apurou que 43% dos brasileiros temem o regresso da família Bolsonaro ao poder, e que 42% temem igualmente a continuidade de Lula. Numa democracia saudável, a diferença seria maior. Nesta, é um pequeno detalhe. Lula governa com 55% de rejeição, pressionado pela inflação, pelo custo de vida e por uma perceção de governação que privilegia a sobrevivência política sobre a entrega de resultados. O eleitorado independente, esse terço decisivo dos eleitores que não tem lado, mas decide quem ganha, está muito insatisfeito. E, quando os independentes estão insatisfeitos, a história diz que o incumbente tem um problema. Lula sabe-o, mas não tem resposta clara.
O que talvez seja mais pesado que os números em si mesmos é o dano social que a polarização causou a um país que, insisto, não foi feito para isto. A violência da cisão dos últimos anos entrou casa das pessoas adentro, destruiu amizades de décadas e transformou os almoços de família, tão valorizados pelos brasileiros, num campo de batalha ideológico. Felipe Nunes, cientista político e fundador da Quaest, explica esta involução civilizacional em dois extraordinários livros, a Biografia do Abismo e o Brasil no Espelho, com uma precisão tão rigorosa quanto perturbadora: a polarização brasileira não é um acidente de percurso nem o produto de algoritmos. É o resultado previsível de estruturas sociais antigas que finalmente encontraram expressão política direta. O que torna tudo ainda mais difícil e desesperante é a constatação de que não existe solução rápida para estruturas com mais de quinhentos anos. Não que os brasileiros sejam irreconciliáveis, mas porque as causas profundas da fratura antecedem qualquer liderança, qualquer eleição e qualquer algoritmo.
O Brasil vai votar em Outubro sem que se conheça, por agora, a opção viável de um candidato que represente genuinamente o terço independente, sem uma narrativa de reconciliação credível, sem uma proposta que devolva ao país a sua vocação natural de síntese de pensamentos, culturas e formas de estar. Nelson Rodrigues tinha razão: «O Brasil é muito impopular no Brasil». A mais estranha de todas as tragédias é aquela em que um povo, que não se revê no conflito que protagoniza, não consegue, mesmo assim, sair dele.
Consultor de Comunicação
