O cidadão contribuinte líquido do nosso atraso
Há uma longa tradição de explicar o atraso nacional quase exclusivamente pela ação do Estado e das elites políticas, económicas e mediáticas. Essa explicação é largamente correta, mas incompleta. Um modelo político não se sustenta durante décadas apenas por imposição de cima; sustenta-se porque encontra, em baixo, hábitos e disposições que o tornam funcional. O atraso português tem também uma segunda origem: uma cidadania fraca, defensiva e paradoxalmente individualista.
Não se trata de culpabilizar "o povo" de forma abstrata. É reconhecer que o cidadão português médio, longe de ser apenas vítima passiva de um sistema injusto, é muitas vezes agente adaptativo desse sistema. O atraso não decorre só de coerção, mas de um padrão estrutural de conformidade e conivência. Não são traços ontológicos, nem uma generalização errónea: trata-se de um padrão sociológico conhecido, presente noutras sociedades, que em Portugal assume uma forma particularmente estável. Este padrão não é novo. Tem raízes que recuam vários séculos e atravessaram regimes e formas de Estado sem nunca desaparecerem por completo.
Desde a Idade Média, as relações de patronato e a troca de favores constituíram modos normais de organização do poder: a administração funcionava menos através de regras universais e impessoais do que através de vínculos pessoais de lealdade e dependência, e o favor público era concedido em troca de fidelidade, não percecionado como corrupção mas como funcionamento legítimo da ordem social. Mesmo com a implantação de formas institucionais modernas, estas práticas não desapareceram. Durante a Primeira República, o caciquismo político consolidou a primazia das redes locais de influência sobre as regras formais: os caciques controlavam o acesso a empregos e favores administrativos, manipulavam processos eleitorais e funcionavam como intermediários entre o poder central e a população. A relação histórica com o fisco reforçou este padrão. No Império Português, a cobrança de impostos era frequentemente arrendada a particulares, os chamados contratadores, o que tornava a fiscalidade uma atividade percebida como arbitrária e abusiva; a evasão fiscal assumia a forma de resistência silenciosa, socialmente tolerada e moralmente desculpabilizada.
É esta herança que ajuda a explicar o incivismo, o individualismo defensivo e o espírito de clã (os meus, a minha rua, a minha zona), enquanto respostas adaptativas a contextos históricos marcados por fraca confiança institucional, instabilidade das regras e uma longa distância entre o poder e a vida comum.
O comportamento do português raramente é agressivo ou contestatário com as instâncias próprias; assume antes a forma de um incivismo negligente e quotidiano, acompanhado de indulgência moral: pequenas transgressões normalizadas, desatenção ao espaço comum, incumprimentos justificados pela........
