A Direita portuguesa: Uma fragilidade estrutural
No atual panorama político português, naquilo que se convencionou designar como direita, o PSD transformou-se principalmente numa tecnocracia de poder, enquanto o CDS cometeu um autêntico suicídio ideológico, abdicando da sua especificidade doutrinária em nome de um projeto de poder sob a liderança de Paulo Portas, o que ditou o seu posterior esvaziamento por novas forças como a IL e o Chega. Nestas, o balanço é ambivalente: a Iniciativa Liberal desiludiu os autênticos liberais, tanto na sua matriz clássica como libertária, e o Chega, apesar de uma consolidação eleitoral já estrutural, continua incapaz de atrair, uns por medo e outros por racionalidade, um setor de cidadãos que representa uma capacidade crítica, intelectual e cultural altamente relevante.
A existência de uma direita democrática, simultaneamente liberal e conservadora, foi residual nos últimos cinquenta anos; existiu como projeto, mas nunca como realidade consolidada. Aquilo que o centro e a esquerda rotulam como direita não o é na aceção profunda do termo. Subsiste, todavia, um espaço latente para uma força agregadora, capaz de colher reconhecimento entre os descontentes dos vários partidos e nas vastas fileiras da abstenção.
Pedro Gomes Sanches agitou recentemente o debate ao propor a necessidade e a viabilidade de um Partido Conservador Popular. Esta formulação de um partido conservador de matriz europeia, hoje confrontada com novas correntes ditas antissistema que reivindicam para si elementos do conservadorismo, teria de ser, na sua génese, necessariamente liberal na aceção clássica. O problema de fundo reside precisamente na incompreensão destas conceções de conservadorismo e liberalismo num país que teima em não convergir com o modo de vida e a prosperidade da Europa ocidental; um país fustigado por um estatismo e um centralismo tão estruturais que, segundo dados do INE e da OCDE relativos ao limiar de privacidade relativa, sem as transferências do Estado perto de quarenta por cento da população estaria remetida à pobreza.
Portugal nunca desenvolveu uma tradição genuinamente liberal e conservadora no sentido moderno e democrático destas expressões. Houve experiências parcelares, aproximações incompletas e momentos historicamente relevantes, mas nunca uma verdadeira consolidação cultural e política dessas correntes enquanto forças duradouras de governo, capazes de moldar instituições, hábitos sociais e uma cultura cívica consistente. A direita portuguesa vive, ainda hoje, as consequências dessa fragilidade estrutural.
O liberalismo português raramente correspondeu ao ideal clássico de limitação do poder político, fortalecimento da sociedade civil e valorização da responsabilidade individual. Em muitos momentos, degenerou numa forma centralizadora e elitista de administração do Estado, desligada da criação de uma cultura de autonomia cívica e de autogoverno social. O Setembrismo e o Cabralismo do século XIX ilustram bem esta tendência: ambos invocaram o liberalismo como legitimação, mas governaram através de uma lógica administrativa e centralizadora que sufocou o desenvolvimento de uma sociedade civil autónoma. O Fontismo, apesar dos seus méritos modernizadores em infraestruturas,........
