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O Matuto o Carnaval e as Cinzas

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17.02.2026

O Matuto recorda uma crónica antiga de Clarice Lispector: “Restos de Carnaval”. Clarice, com oito anos, assistia à festa sem participar de nada. Por causa da doença da mãe, que sofria duma paralisia progressiva, o ambiente da casa era triste e severo. Clarice nunca tinha ido a bailinhos nem se fantasiado de nada; os pais só a deixavam ficar do lado de fora, “olhando ávida os outros se divertirem”.

Num certo carnaval, uma amiga da família presenteou-a com uma fantasia de rosa feita de restos de papel crepom. “Pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra e não eu mesma.” Mas o prenúncio de animação foi cancelado pelas pioras súbitas da mãe. Num alvoroço, Clarice foi despachada para buscar remédios na farmácia. Foi correndo, atónita, entre serpentinas, confetes e gritos: “a alegria dos outros me espantava”.

Na volta, a fantasia já tinha fenecido. Como nas histórias de fada, a menina já não era uma rosa. Era uma simples menina. Retomou o seu posto à porta da casa, olhando a folia alheia. Foi então que um menino, numa mistura de carinho, brincadeira e sensualidade, jogou um punhado de confetes na sua cabeça. Os dois sorriram em silêncio. Pela primeira vez alguém a reconhecia como parte da festa, e ela sentiu-se rosa naquele instante.

As visitas à ‘Casa das Pontes’ vão tricotando ideias. A Belinha, força da natureza nestas matérias, entrou a matar:

- Carnaval rima com boçal. É a suspensão oficial da compostura.

O Sr. Rocha, a visita letrada das ‘Pontes’, coça a careca com prazer intelectual:

- O que não impede reconhecer que a decadência tem pedigree respeitável. O Carnaval é invenção europeia, antiga, disciplinada e até pedagógica. Nasceu como licença organizada para a desordem - continua o Sr. Rocha - três dias de mundo ao contrário antes da Quaresma pôr toda a gente de joelhos outra vez. O servo virava rei, o tolo virava juiz, e a sociedade respirava fundo antes de regressar ao seu normal cinzento.

- Uma válvula de escape - repele a Belinha. - Como abrir a panela de pressão. A temperança só volta na Quarta-Feira de Cinzas.

- Exactamente – atalha o Sr. Rocha – a procissão de Quarta-Feira de Cinzas foi instituída em 1643. A intenção da irmandade que fez a proposta era muito pia. Mas parece que ainda era muito pagão o povo da terra, feito de negros mal desembarcados das Áfricas e duma aportuguesada mourisca também remanescente de África. E, isto sem falar nos Índios, pagãos de corpo inteiro, e grandes amigos de folguedo e folias. Mal começou a coisa transformou-se em terrível pagodeira. De certa forma, estas procissões coloniais foram as precursoras da festa de carnaval.

- É isso mesmo – entusiasma-se a Belinha. – O carnaval europeu quando atravessou o oceano, ganhou euforia e alforria. Uma teologia tropical onde a carne se demonizou. Virou deboche.

- O entrudo português misturou-se com batuques africanos e com o talento brasileiro para transformar qualquer coisa em espectáculo - prossegue o Sr. Rocha. - O resultado é um povo inteiro ensaiando felicidade em escala industrial. A alegria tornou-se dever cívico, e quem não dança parece suspeito de sabotagem.

- Eu seria presa na primeira meia hora - diz a Belinha.

O Matuto acha a confissão digna.

- O problema não é a nudez, nem o barulho, nem a embriaguez - o homem sempre foi dado a essas ciências experimentais - diz o Sr. Rocha. - A derrocada moderna do Carnaval é mais subtil e por isso mais triste: perdeu a função. Já não inverte nada, não critica nada, não revela nada. É só estroinice e bandalheira!

A Belinha acrescenta:

— É verdade. E, embora a distribuição das cinzes aconteça dentro das igrejas, o escândalo em horário nobre continua. No outro dia uma moça foi tomar cinza com o cabelo salpicado de pó de ouro e confete. O padre chateou-se e deu um sermão irado contra as pessoas que profanavam a casa de Deus querendo limpar o corpo ainda manchado pelas orgias pagãs. A moça saiu da igreja aos soluços. O noivo da moça quis dar um tiro no padre. O nome da moça foi arrastado pelas ruas da amargura... tudo por causa dum punhado de pó de ouro, mal varrido. Também, depois disso não havia escova que chegasse para limpar o cabelo das moças, dos vestígios pagãos, na hora de tomar cinza na cabeça.

O Matuto considera que não é tarefa fácil o arrependido passar do frenesi da carne para o bater de peito espiritual. Rasgar as vestes e encher o cabelo de borralho são atitudes místicas de difícil consumo moderno.

O Sr. Rocha termina, satisfeito com a própria arquitectura moral:

- No fim, sobra um cansaço colectivo. O carnaval é uma festa para esquecer a condição humana, “não eu mesma”, e acaba por criar apenas mais uma prova de que dela não se escapa. A carne dança três dias. A alma paga a conta o resto do ano. Quando a transgressão precisa de patrocínio, já nasceu domesticada.

Ninguém discorda. Lá fora alguém ensaia um samba fora de tom. A Belinha fecha a janela com cuidado. Na ‘Casa das Pontes’, o jazz invade o ar... Coltrane em “Say it, over and over again”. O Matuto observa a rua e murmura que a verdadeira vitória da civilização não foi inventar a festa - foi aprender a mantê-la do lado de fora. Afinal tudo acaba em cinza! Do pó viemos. Para lá voltaremos.


© SOL