O Matuto o Carnaval e as Cinzas
O Matuto recorda uma crónica antiga de Clarice Lispector: “Restos de Carnaval”. Clarice, com oito anos, assistia à festa sem participar de nada. Por causa da doença da mãe, que sofria duma paralisia progressiva, o ambiente da casa era triste e severo. Clarice nunca tinha ido a bailinhos nem se fantasiado de nada; os pais só a deixavam ficar do lado de fora, “olhando ávida os outros se divertirem”.
Num certo carnaval, uma amiga da família presenteou-a com uma fantasia de rosa feita de restos de papel crepom. “Pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra e não eu mesma.” Mas o prenúncio de animação foi cancelado pelas pioras súbitas da mãe. Num alvoroço, Clarice foi despachada para buscar remédios na farmácia. Foi correndo, atónita, entre serpentinas, confetes e gritos: “a alegria dos outros me espantava”.
Na volta, a fantasia já tinha fenecido. Como nas histórias de fada, a menina já não era uma rosa. Era uma simples menina. Retomou o seu posto à porta da casa, olhando a folia alheia. Foi então que um menino, numa mistura de carinho, brincadeira e sensualidade, jogou um punhado de confetes na sua cabeça. Os dois sorriram em silêncio. Pela primeira vez alguém a reconhecia como parte da festa, e ela sentiu-se rosa naquele instante.
As visitas à ‘Casa das Pontes’........
