O centro tem de ter coragem e falar alto
Durante demasiado tempo, o centro político foi confundido com fraqueza. Com tibieza. Com aquela posição confortável de quem não quer incomodar ninguém e acaba por não dizer nada de relevante. Em Portugal, essa ideia instalou-se de tal forma que ser do centro passou quase a ser sinónimo de falta de convicção. É um erro. E é um erro com custos.
O centro político não é, nem nunca foi, um espaço neutro. Não é um ponto equidistante entre esquerda e direita onde tudo se dilui. O centro é, ou deveria ser, um lugar de decisão. Um lugar onde se escolhe, com pragmatismo e coragem, aquilo que melhor serve o país, sem amarras ideológicas rígidas, mas também sem medo de assumir posições firmes. O problema é que, em Portugal, esse centro não existe verdadeiramente.
O PS ocupa o espaço do centro-esquerda. O PPD posiciona-se no centro-direita. Ambos são partidos de poder, com história, com implantação, com eleitorado fiel. Mas nenhum deles é, de facto, um partido de centro no sentido pleno do termo.
À volta, o espectro político organiza-se de forma previsível. O PAN aproxima-se do centro-esquerda. A Iniciativa Liberal posiciona-se no centro-direita. O Livre assume-se como partido de esquerda. O CDS mantém-se na direita. O Bloco de Esquerda ocupa a esquerda mais radical. O Partido Comunista Português permanece na sua matriz de extrema-esquerda. O Chega afirma-se na extrema-direita. E o Juntos Pelo Povo continua sem uma identidade política clara.
Fora do Parlamento, o cenário não é mais animador. Não há um único partido que se apresente como verdadeiramente centrista, com uma visão coerente e com ambição de poder. Talvez porque muitos acreditem que esse espaço já está ocupado. Que o centro pertence ao PS e ao PSD. Que não há margem para mais ninguém. Mas isso é um erro de análise.
O centro político não é uma geografia ocupada. É um espaço que se conquista. E, neste momento, está longe de estar preenchido. Porque o que temos hoje não é um centro forte. É um centro repartido. Fragmentado entre dois partidos que, sendo moderados, continuam presos às suas tradições ideológicas. Um olha mais para a redistribuição, o outro mais para o mercado. Um inclina-se para o Estado, o outro para a iniciativa privada. Ambos hesitam quando é preciso romper com as suas próprias ortodoxias. E é precisamente aí que falha o centro.
Ser de centro não é tentar agradar a todos. É fazer escolhas difíceis. É dizer que o Estado deve ser forte onde tem de ser forte e recuar onde é ineficiente. É defender a economia de mercado sem abdicar de coesão social. É apostar no crescimento sem esquecer quem fica para trás. É, acima de tudo, recusar soluções fáceis para problemas complexos. Mas para isso é preciso coragem.
Um verdadeiro partido de centro não pode ser mole. Não pode falar baixo. Não pode viver de equívocos. Tem de ser assertivo, até agressivo no bom sentido. Tem de responder às preocupações concretas das pessoas, da habitação à saúde, da imigração à segurança, sem medo de desagradar a trincheiras ideológicas.
O eleitorado português não é radical. Nunca foi. A maioria dos portugueses quer estabilidade, quer soluções, quer bom senso. Mas também quer liderança. Quer clareza. Quer alguém que diga ao que vem. E é isso que falta ao centro.
Falta uma voz que não peça desculpa por existir. Que não se esconda entre etiquetas. Que não tenha medo de competir com PS e PPD, não como alternativa lateral, mas como verdadeira opção de poder.
Portugal não precisa de mais um partido que se declare moderado para depois agir como todos os outros. Precisa de um centro com ambição, com densidade política e com capacidade de execução. Um centro que perceba que moderação não é indecisão. Que equilíbrio não é neutralidade. E que governar não é gerir expectativas, é tomar decisões.
Enquanto esse centro não existir, o espaço continuará aberto. E num sistema político onde os extremos ganham cada vez mais visibilidade, deixar o centro vazio é um risco que o país não devia correr. O centro não é um lugar de passagem. É, ou devia ser, um destino político.
Tiago Matos Gomes é presidente do movimento Partido Democrata Europeu e tem um artigo quinzenal no SAPO // O autor escreve com o antigo acordo ortográfico
