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Marcelo, o príncipe dos afectos

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06.03.2026

Na próxima segunda-feira fará 10 anos que Marcelo Rebelo de Sousa desceu a pé a Calçada da Estrela em direcção à Assembleia da República para tomar posse como Presidente da República. O gesto, simples e simbólico, marcou desde logo o tom do mandato que agora termina. Num país habituado a liturgias formais, aquele percurso a pé anunciava um Presidente próximo, disponível e, sobretudo, diferente.

Se Mário Soares ficou na memória colectiva como o rei da República, Marcelo Rebelo de Sousa será recordado como o príncipe dos afectos.

Os portugueses já o conheciam muito antes de chegar a Belém. Tinha sido líder do PPD, era o Professor Marcelo, docente na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, mas sobretudo o comentador político que durante décadas entrou semanalmente nas casas dos portugueses, primeiro na TSF e depois nas televisões, com especial destaque para a TVI. A presidência foi, nesse sentido, uma continuação natural dessa proximidade.

Desde cedo imprimiu um estilo muito próprio ao cargo. As selfies tornaram-se uma imagem de marca e ganharam até um nome particular quando tiradas com o Presidente: as “marselfies”, termo que entrou no léxico popular e até na infopédia. Mais do que um gesto mediático, simbolizavam uma forma de exercer o poder: com as pessoas, no meio das pessoas.

Essa ligação foi especialmente visível junto dos mais frágeis. Marcelo deu atenção particular aos sem-abrigo, conversou com muitos deles, tornou-se amigo de alguns e chegou mesmo a prometer erradicar essa realidade até ao fim do mandato. A promessa não se concretizou. Pelo contrário, o número de pessoas em situação de sem-abrigo aumentou ao longo da década. Ainda assim, a preocupação com os mais esquecidos foi uma constante do seu tempo em Belém.

São muitas as imagens que ficarão para a memória colectiva. Marcelo a abraçar vítimas dos incêndios de 2017. Marcelo a consolar quem perdeu tudo nas sucessivas tempestades que atingiram o país já em 2026. Marcelo a beijar rostos marcados pela dor. Não era encenação. Quem o conhece sabe que Marcelo gosta genuinamente de pessoas.

Recordo, aliás, um momento pessoal que ilustra bem essa faceta. A presença de Marcelo no velório do meu tio, Carlos Matos Gomes. Não foi apenas o facto de ter estado presente. Foi a forma como falou com a minha família, com conhecimento e respeito, recordando a condecoração que lhe tinha atribuído e falando dele com verdadeiro apreço. No dia seguinte voltou para assistir à missa. Nada foi artificial.

Mas nenhum Presidente escapa às sombras. A carreira de Marcelo já tinha episódios controversos, como o célebre caso da vichyssoise nos anos 90 do século passado. Mais recentemente, enfrentou o polémico caso das gémeas, que o envolveu e que chegou a afectar a sua relação com o próprio filho. Houve também a infeliz reacção inicial às denúncias de vítimas de pedofilia na Igreja Católica, que acabaria por reconhecer como um erro.

Muitos desses episódios tiveram uma origem comum: a tendência para falar demasiado. Marcelo nunca resistiu ao comentário, ao improviso, à análise permanente da actualidade. Essa hiperactividade teve um preço. Por vezes banalizou a palavra presidencial, transformando-a quase num comentário político permanente.

Nem sempre o ritmo foi fácil de acompanhar. Chegou mesmo a desmaiar em público, vítima do cansaço de uma agenda que parecia não conhecer limites.

Mas o mesmo Presidente que falava demais era também capaz de gestos inesperados que o tornaram profundamente divertido e popular. Como quando, num restaurante, tirou uma batata frita do prato de um cidadão. Ou os seus famosos apertos de mão, tão vigorosos que quase arrancavam braços, como bem sentiu Donald Trump num encontro na Casa Branca.

Havia ainda o lado pedagógico do professor. Durante a pandemia regressou simbolicamente à telescola na RTP, dando uma aula num momento particularmente difícil para o país. E em vários discursos tentou explicar o que significa ser português, uma reflexão que atravessou todo o seu mandato e que voltou a surgir no último discurso de Ano Novo.

A sua ligação à Igreja Católica também nunca foi escondida. Viu-se com a sua euforia quando Lisboa ganhou as Jornadas Mundiais da Juventude, com a famosa reacção: “Conseguimos! Portugal! Lisboa! Esperávamos, desejávamos, conseguimos! Vitória!”. E a forma calorosa como recebeu o Papa Francisco nessas Jornadas Mundiais, em que participou em quase todas as iniciativas do chefe da Igreja Católica.

E, claro, havia o futebol. Marcelo nunca escondeu a paixão pela selecção nacional, comentando jogos nas zonas mistas dos estádios como se continuasse a ser o comentador televisivo de outrora.

Durante estes dez anos conviveu politicamente oito com António Costa. A relação entre ambos vinha de longe. Houve momentos de tensão, como é inevitável entre Presidente e primeiro-ministro, mas também uma amizade reconhecida que, em muitos momentos, ajudou a garantir estabilidade política. E que serviu aos dois.

Marcelo Rebelo de Sousa não é um homem perfeito. Nenhum Presidente o é. Nenhuma pessoa o é. Mas marcou profundamente uma década da democracia portuguesa e deixará saudades.

Na próxima segunda-feira passará o testemunho a António José Seguro. Belém terá um novo inquilino e outro estilo. Dificilmente voltaremos a ter um Presidente igual. E, pelo menos para muitos portugueses, a República ficará um pouco menos afectuosa sem ele.

Muito obrigado, Presidente Marcelo.

Tiago Matos Gomes é presidente do movimento Partido Democrata Europeu e tem um artigo quinzenal no SAPO // O autor escreve com o antigo acordo ortográfico


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