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A habitação, os culpados e os maus incentivos

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03.11.2026

Há uns anos, quando a inflação subiu em flecha, os partidos e analistas de esquerda acusaram os empresários de se juntarem de madrugada para, de forma concertada, combinarem uma subida dos preços e uma redução real dos salários. Todos nos rimos de tamanha tolice.

Hoje, os preços das casas sobem em praticamente todos os países da Europa — aliás, em quase todos os países ocidentais — e há quem ache que o problema é a falta de construção e de licenciamento, promovida pelos governos e pelas autarquias. Nesta nova fantasia, autarcas, políticos e arquitetos juntaram-se todos, à meia-noite, na hora do crime e da traição, para impedir que se construísse o que quer que fosse.

Mas a economia não funciona assim. Não precisamos de conspirações para explicar comportamentos que resultam de incentivos económicos perfeitamente racionais. Cada agente faz o que lhe é mais conveniente e o resultado coletivo pode ser precisamente o contrário daquilo que todos dizem querer. É a economia, estúpido!

Afinal, quais são os incentivos para não construir?

1. A subida do preço da habitação não é um fenómeno exclusivamente português. Acontece na Hungria, em Portugal e nos Estados Unidos e um pouco por todo o mundo ocidental. É difícil acreditar que autarcas e burocratas de países tão diferentes tenham decidido, todos ao mesmo tempo, deixar de construir.

Há assim uma causa comum: a política monetária dos bancos centrais. Desde o início do milénio, e sobretudo após a crise financeira de 2008, os bancos centrais apostaram em políticas de juros........

© Sapo