Portugal em 2050: a Defesa sem bússola americana
Há um género de textos que vale menos pelo que afirma do que pelo espelho que estende a quem o lê de soslaio. O recente artigo de Daniel Fiott para a iniciativa "Europe 2050" do Centro de Pesquisa de Política Económica (CEPR) - "European Defence and Statecraft in 2050: And What Needs to be Done to Get There" - pertence a essa categoria. Fiott pergunta o que substituiria a NATO se a Aliança se dissolvesse ou se tornasse inoperante, e responde com um exercício de imaginação institucional cuidadosamente ancorado no artigo 42.º, n.º 7, do Tratado da União Europeia (UE), a cláusula de defesa mútua que, invocada uma única vez por França em 2015, permanece, segundo o autor, "uma disposição de tratado adormecida". O exercício é europeu.
Fiott defende que a principal preocupação dos aliados europeus é saber se os Estados Unidos (EUA) poderiam eventualmente reduzir o seu papel na NATO, quer retirando-se completamente, quer permanecendo formalmente envolvidos, mas limitando o seu empenhamento político e militar. Em qualquer dos cenários, a dissuasão e a defesa europeias enfrentariam desafios significativos, particularmente no flanco leste. Embora muitos analistas argumentem que uma saída dos EUA da NATO não serviria os interesses americanos, não há garantia de que a NATO se mantenha inalterada até 2050. Esta não é simplesmente uma reacção aos desenvolvimentos políticos actuais, mas reflecte questões estruturais mais amplas sobre o futuro do papel dos EUA na Europa, e essas questões estruturais têm hoje sinais concretos que as tornam menos hipotéticas do que pareciam há poucos anos. A postura cada vez mais agressiva da Rússia, associada às críticas reiteradas de Trump quanto ao posicionamento de vários aliados europeus na crise do Médio Oriente, podem facilmente produzir desfechos pouco ou nada favoráveis à segurança do continente, sobretudo se Washington passar a condicionar o seu empenhamento a alinhamentos que a Europa não está disposta, ou não consegue, garantir de forma unida. A isto somam-se as fracturas cada vez mais visíveis entre Estados-membros da União, sobre sanções, sobre apoio militar, sobre a própria definição de ameaça, e até a incerteza sobre o que umas futuras eleições no eixo franco-alemão poderão significar para a arquitectura de defesa europeia, num momento em que tanto Paris como Berlim enfrentam recomposições internas que podem alterar profundamente a disponibilidade e a direcção do seu investimento estratégico comum. Mesmo com o aumento do investimento europeu na defesa a reforçar a Aliança, o desafio mais profundo diz respeito à capacidade da NATO para tomar decisões coerentes e oportunas numa crise. Uma futura administração americana poderá não proporcionar a liderança em que os europeus historicamente confiaram, ou poderá........
