A ciência começa a medir o poder da amabilidade
Pesquisas em neurociência e endocrinologia indicam que a amabilidade impacta positivamente a biologia humana, alterando ritmo cardíaco e hormonas do stress.
O médico Mario Alonso Puig destaca que a amabilidade ativa o nervo vago, promovendo a coerência cardíaca e a libertação de hormonas benéficas.
Estudos da cientista Elizabeth Blackburn, Prémio Nobel, sugerem que estados emocionais positivos e vínculos saudáveis aumentam a atividade da telomerase, protegendo as células.
A matéria ressalta que a amabilidade, além de ser uma prática ética, é uma estratégia de saúde e coesão social, com efeitos mensuráveis no corpo e nas relações.
Num momento histórico em que ansiedade, depressão e doenças inflamatórias avançam como epidemias silenciosas, um dado começa a deslocar certezas na medicina contemporânea: a forma como tratamos os outros interfere diretamente na nossa própria biologia. Não se trata de moralismo ou autoajuda açucarada. Pesquisas em neurociência e endocrinologia indicam que a amabilidade altera o ritmo cardíaco, modula hormonas do stress e influencia mecanismos celulares ligados à longevidade. O que antes era virtude doméstica passa a ser variável clínica.
O médico e pesquisador espanhol Mario Alonso Puig sustenta essa tese com a autoridade de quem passou mais de vinte anos no bloco cirúrgico antes de mergulhar na investigação sobre comportamento humano e cérebro. Segundo ele, quando alguém age com genuína amabilidade, ativa-se o nervo vago anterior, estrutura essencial do sistema nervoso parassimpático. Essa ativação produz a chamada coerência cardíaca — um padrão mais harmonioso de funcionamento do coração.
Essa harmonia cardíaca envia sinais ao cérebro, favorecendo a cooperação entre os hemisférios direito e esquerdo, frequentemente tensionados na vida adulta. Não é apenas sensação subjetiva de bem-estar; há sincronização fisiológica mensurável. A coerência cardíaca também comunica com as glândulas suprarrenais, estimulando a libertação de DHEA — dehidroepiandrosterona — hormona associada ao fortalecimento do sistema imunitário, à redução do colesterol LDL e à diminuição do cortisol, marcador do stress crónico. Há ainda impacto sobre regeneração de tecidos, massa muscular e densidade óssea. A gentileza, portanto, produz efeitos sistémicos.
O argumento ganha densidade quando se recorda o trabalho da cientista Elizabeth Blackburn, laureada com o Prémio Nobel de Medicina em 2009 pela descoberta da telomerase. A enzima protege os telómeros, estruturas que preservam a integridade dos cromossomas e influenciam a longevidade celular. Estudos subsequentes sugerem que estados emocionais positivos, associados à libertação de oxitocina e à activação do nervo vago, relacionam-se com maior actividade dessa enzima. Vínculos saudáveis parecem proteger as próprias células.
Mas a discussão não se esgota na fisiologia. Há tradições espirituais que há muito afirmam que a amabilidade não é etiqueta social, mas disciplina de carácter. Nos Escritos de Bahá’u’lláh e de ‘Abdu’l-Bahá, ela é apresentada como prática universal: tratar o estranho com a mesma dignidade dispensada ao familiar, manter um padrão ético que não dependa de simpatia ou conveniência. A radicalidade está precisamente aí — na coerência.
Álibi para a injustiça
Ao mesmo tempo, essa visão rejeita qualquer sentimentalismo ingénuo. ‘Abdu’l-Bahá adverte que a bondade não pode servir de álibi para a injustiça. Não se alimenta a tirania com complacência nem se fortalece o engano com permissividade. A verdadeira amabilidade exige discernimento: busca reconciliação quando possível, mas preserva a integridade moral quando confrontada com o abuso.
Essa síntese entre ciência e consciência revela algo que o debate público raramente admite: comportamento humano é infraestrutura biológica e também arquitetura ética. Num mundo marcado por polarizações agressivas, interações digitais hostis e discursos inflamados, a escolha por um trato respeitoso deixa de ser mera etiqueta social. Torna-se estratégia de saúde e de coesão civilizatória.
Entre o coração e o cérebro
A gentileza não substitui políticas públicas nem terapias complexas. Mas cria o ambiente interno e relacional onde tais medidas encontram terreno fértil. Entre o coração e o cérebro, há um nervo; entre as pessoas, há uma decisão. E essa decisão, confirmam laboratório e tradição espiritual, pode regenerar tecidos — e também relações.
