Brincar aos deuses, ou recusar brincar aos homens?
No artigo "IndieLisboa, um ano depois do cancelamento: brincando aos deuses" (PÚBLICO, 29 de Abril), Vasco Câmara regressa ao caso Ico Costa para repetir uma ideia que já atravessava o seu texto de 2025, "O email que encostou o IndieLisboa à parede": o festival teria cedido ao justicialismo, desvalorizado a presunção de inocência e confundido uma denúncia com sentença. O problema é que esta leitura, apresentada como prudência democrática, reproduz algumas das violências discursivas que tornam tão difícil falar de violência contra mulheres.
Segundo Vasco Câmara, há hoje indícios de que o email inicial terá sido escrito por um homem sob identidade falsa. É legítimo dar peso a esse dado. Mas a conclusão não pode ser que a escuta de denúncias é perigosa, ou que o gesto do IndieLisboa foi delírio moral. A pergunta deveria ser outra: que cultura permite que um homem........
