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O bolo do imigrante

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Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Receita para receber o Outro: dois copos de lealdade, cinco mãos cheias de respeito, três colheres cheias de risadas, duas latas de escuta e um barril de afeto. Massa pronta e forno aquecido. Deixe assar durante uma lua cheia e aprecie sem moderação.

A receita está exposta numa tábua de cozinha, dessas que ocupam discretamente o espaço entre os utensílios do dia a dia. Encostada na bancada onde se preparam as refeições, parece apenas mais um detalhe — mas não é.

Estou em Portugal e passei o fim de semana hospedado na casa de um amigo. Ele é canadense, eu, brasileiro. Quem nos apresentou foi um francês — outro imigrante. Entre um café e outro, conversamos sobre nossas histórias, culturas e sobre essa escolha de viver fora do país de origem e eleger Portugal como morada.

Entre as promessas públicas e partidárias, nos encontramos nos desencontros de informações, mas seguimos apaixonados pela luz, pelo Tejo e pela possibilidade de troca com o português. Aprender, mas também ensinar, já que colaborar é regra básica para conviver. Falamos sobre aprender a decifrar códigos, um novo lugar e entender o mundo a partir de outro chão.

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No meu caso, adaptar a língua e me aproximar da minha raiz, do meu Ignacio, que vem de uma história de amor entre Vila Real e Bragança. No dele, aprender um outro idioma, ver mais do mundo, sentir o outro a partir de uma nova perspectiva e promover encontros, para si e para os outros. “Estou só começando”, diz ele, aos 60 anos, iniciando uma nova jornada.

Foi nesse intervalo, entre a conversa e o silêncio, que meus olhos pousaram sobre a receita que dá início a este ensaio. Ao ler, algo se movimenta: o que parecia um enfeite, revela-se como uma espécie de manual afetivo.

Para o sujeito imigrante, a amizade talvez não seja apenas encontro — mas construção. E, como toda construção, exige ingredientes das partes, tempo e disposição para sustentar o que ainda não tem forma e pode parecer estranho ao primeiro olhar.

Diante dessa receita — simples, quase uma piada —, ocorreu-me que a amizade talvez não se sustente naquilo que nos completa, mas na forma como lidamos com o que nos falta. Para Jacques Lacan, toda relação humana passa por um ponto fundamental: a falta. O que isso implica para a amizade?

Implica, antes de tudo, desmontar a ideia de fusão. A amizade não é complementaridade perfeita, nem o encontro de metades que se encaixam. É, ao contrário, um vínculo entre dois sujeitos incompletos, em que o outro nunca será totalmente compreendido. E isso não é um problema a ser resolvido, mas uma condição do laço.

É nesse ponto que a fala da psicanalista Vera Iaconelli se faz presente. Ao criticar modelos normativos de relação, seja na família ideal, seja na amizade idealizada, ela desloca o vínculo para outro lugar: o da escuta.

A amizade não é um espaço de projeção, mas de encontro com aquilo que, no outro, não se encaixa em nós. Não segue formas pré-estabelecidas, não obedece a roteiros e não se organiza a partir de expectativas rígidas. Ao contrário, atravessa diferenças — de idade, classe, cultura, experiência — sem exigir que desapareçam.

Talvez seja por isso que aquela receita, encontrada quase por acaso sobre uma tábua de cozinha, num café entre dois imigrantes, faça tanto sentido. Porque, ainda que simples, ela aponta para algo essencial: não há medida exata para o laço, mas há condições para que ele exista.

Lealdade, respeito, escuta, riso, afeto, não como garantias, mas como gestos que, mesmo sem eliminar a falta, tornam possível permanecer e pertencer. Ou será que ainda chamam de nossos apenas aqueles que nasceram sob a mesma bandeira e, de forma dissimulada, nos fazem acreditar que vivemos em um ambiente em que nossa receita possa se desenvolver e promover laços ainda mais fortes, gerando oportunidades entre culturas, onde não há espaço para o medo, mas sim para o desenvolvimento de uma nação.


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