Portugal, temos um problema (que fingimos não ter)
Na noite de 17 de fevereiro de 2026, Vinícius Júnior marcou um golo extraordinário no Estádio da Luz. Enrolou a bola no ângulo superior, foi celebrar junto à bandeirola de canto, dançou — como sempre faz — e o jogo parou durante dez minutos. Não por causa do golo. Por causa do que aconteceu a seguir: um jogador adversário cobriu a boca com a camisola e disse qualquer coisa ao avançado brasileiro. O árbitro cruzou os braços sobre a cabeça, activando o protocolo antirracismo da FIFA.
Depois, como já aconteceu tantas vezes, começou o espectáculo paralelo. O jogador acusado negou. O clube publicou um vídeo às duas da manhã a dizer que “dada a distância, os jogadores do Real Madrid não podiam ter ouvido o que afirmam ter ouvido”. O treinador — José Mourinho, não um desconhecido — insinuou que Vinícius tinha provocado o episódio com a celebração. “Sempre que joga num estádio, acontece alguma coisa. Sempre”, disse. A lógica é curiosa: se és alvo de racismo em todo o lado, o problema és tu.
Isto não é uma história de futebol. É um espelho.
O país que se vê no espelho e gosta do que vê
Nasci em Cabo Verde e vivo em Portugal desde 1997. A minha mulher é da Lituânia. Os meus três filhos nasceram por aqui e oscilam, a nível de pigmentação da pele, entre café pingado e café sujo. Vivemos nos Açores. Digo isto não para me apresentar como vítima nem como árbitro imparcial, mas porque a questão do racismo nunca foi para mim apenas teórica. É doméstica. Já fui vereador na Câmara Municipal de Ponta Delgada.
Portugal tem uma auto-imagem notavelmente generosa em relação a si próprio. Uma sondagem do ICS/Iscte revelou que 52% dos portugueses acredita que, em Portugal, existe menos discriminação étnico-racial do que nos restantes países europeus. Somos o país da expansão, da miscigenação, do saudoso encontro de civilizações. Somos diferentes. Mais tolerantes. Mais abertos. O problema, como diria qualquer psicólogo, é que esta narrativa funciona exactamente como um mecanismo de defesa: impede-nos de ver o que não queremos ver.
Os números que ninguém quer ler ao pequeno-almoço
Mas os números existem e têm a inconveniente característica de não se importarem com as nossas convicções. De acordo com o European Social Survey, 62% dos portugueses........
