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A mesa onde nem todos foram convidados

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28.04.2026

Devo começar por uma confissão: não sou imparcial. Apoiei António José Seguro desde a primeira hora e tenho a forte convicção de que exercerá a Presidência de forma humana e próxima. É precisamente por isso que escrevo este artigo. Não como crítica, mas como interpelação de quem acredita – e, por isso, exige mais.

No discurso mais solene do ano, o Presidente da República disse que "somos iguais e livres". Que a liberdade é "a dignidade de cada pessoa reconhecida e protegida". Palavras bonitas. Palavras verdadeiras.

Mas em nenhum momento da sua intervenção na sessão solene do 52.º aniversário do 25 de Abril foram mencionados os imigrantes.

Portugal tem hoje mais de 1,5 milhões de imigrantes – cerca de 15% da população. É a Joana que acorda às cinco da manhã para limpar o aeroporto. É o Abdoulaye que colhe a fruta no Alentejo sob o sol de agosto. É a Natália que cuida do pai de um de nós no lar enquanto trabalhamos. São pessoas que vivem, trabalham, pagam impostos, constroem casas, cuidam de doentes e criam filhos entre nós – e que, no discurso mais solene do ano, simplesmente não existiram.

O silêncio não é neutro. É uma escolha. E não foi a primeira vez. Já no discurso de tomada de posse, os imigrantes estiveram ausentes. O que no início podia parecer uma omissão pontual revela-se agora um padrão. E um padrão tem um significado que um silêncio isolado não tem.

O mesmo discurso do 25 de Abril falou de saúde mental, de habitação, de alterações climáticas, de inteligência artificial, de corrupção. Todos temas legítimos e urgentes. Mas há uma parte da sociedade portuguesa que vive entre nós e que, naquele momento, simplesmente não existiu. Não foi nomeada. Não foi reconhecida. Não foi convidada para a mesa do jantar da família........

© PÚBLICO