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Não olhem para cima

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04.02.2026

A melhor explicação para a nossa relação com a emergência climática está no argumento do filme Don't Look Up: Não Olhem Para Cima. No filme, há um meteorito com trajectória calculada, prazo conhecido e consequências óbvias e fatais, mas, mesmo assim, o país prefere discutir a estratégia de comunicação e prefere substituir a prevenção por espectáculo.

O meteorito existe: é a emergência climática. E a trajectória está à vista há décadas, mas a reação é semelhante: primeiro relativiza-se e desacredita-se quem avisa, depois transforma-se a ciência em opinião, e, por fim, vende-se o negacionismo como identidade política.

Quando se fala em emergência climática, há sempre alguém, quase sempre de extrema-direita, a dizer que “sempre houve mau tempo” ou “sempre houve calor”. São frases preguiçosas que tentam transformar ciência em histeria e a prevenção em capricho.

No filme gritam “não olhem para cima”; cá, a ordem é mais educada e por isso mais eficaz: “não dramatizem”, “não compliquem”, “isso é uma agenda”, “há coisas mais urgentes”.

Não, não há coisas mais urgentes. Há coisas mais fáceis. Há coisas mais fotogénicas. Mas urgentes, no sentido literal, poucas rivalizam com o clima a desregular-se.

Vou repetir o que muitos dizem, mas recorro à famosa citação atribuída ao escritor francês André Gide: "Tudo já foi dito, mas como ninguém ouviu, é preciso dizer outra vez.” E outra, e........

© PÚBLICO