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A geração Z aplaudiu a igualdade de género de pé, mas durante quanto tempo?

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Há um fosso que se alarga todos os dias. De um lado, um auditório no Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA), onde jovens universitários levantam-se para aplaudir uma palestra sobre igualdade de género. Do outro, o mesmo grupo demográfico, horas depois, a deslizar por feeds onde “homens” com milhões de seguidores explicam porque é que as mulheres precisam de ser "colocadas no seu lugar". E a realidade das redes sociais revela o verdadeiro vencedor desta batalha.

Não é preciso citar estudos para perceber o que está a acontecer. Basta abrir qualquer plataforma de redes sociais durante dez minutos. O crescimento de narrativas de masculinidade tóxica é visível, quantificável, obsessivo. Criadores de conteúdo com audiências de milhões construíram impérios inteiros em torno da degradação das mulheres. Não é um fenómeno marginal. Trata-se de um sistema de distribuição que, propositalmente, amplifica estes discursos até à saturação.

E o resultado é evidente quando falamos com jovens: há uma geração para quem a submissão feminina deixou de ser algo questionável e passou a ser normal. Esperado. Até biologicamente justificado, segundo as narrativas que circulam. 31% acredita que a esposa deve obedecer ao marido. Deixem-me ser clara sobre o que isto significa. Não estamos a falar de uma opinião excêntrica. Estamos a falar de quase um terço de uma geração inteira que absorveu esta noção como verdade.

A palestra da Tânia Graça, que assisti no IPCA funcionou, porque conseguiu fazer algo cada vez mais raro: oferecer uma alternativa genuína, não simplista, a estas narrativas. Conseguiu criar um espaço onde a reflexão ganhou peso. E a resposta foi um aplauso prolongado. Sincero. Talvez até desesperado, no sentido em que reflecte uma pequena bolha de resistência.

Mas é exactamente isto que é chocante. Não é o facto de a plateia ter aplaudido (foi mais que merecido). É o facto de isto ser raro o suficiente para comentar. Significa que estamos a um ponto em que um auditório cheio de jovens universitários conseguir reconhecer a igualdade de género como um valor fundamental é suficientemente excepcional para ser digno de destaque.

Enquanto isto acontecia num auditório, o TikTok recomendava a centenas de milhares de adolescentes vídeos de “homens” a explicar porque é que o feminismo é uma conspiração. O YouTube distribuía canais inteiros dedicados a técnicas de "manipulação de mulheres". O Instagram impulsionava publicações que apresentavam a submissão feminina como natural, biológica, inevitável. Tudo isto monetizado, algoritmicamente amplificado, desenhado para ser viciante.

Os criadores de conteúdo que dominam estas plataformas perceberam algo que as instituições educacionais ainda estão a tentar processar: o ressentimento é mais rentável do que a reflexão. A polarização gera mais engagement do que o bom senso. Milhões de euros em publicidade, em subscrições, em mercadorias. A economia das redes sociais recompensa o discurso que degrada.

Portanto, enquanto uma plateia de universitários se levanta e aplaude a igualdade de género, uma geração inteira está a ser, sistematicamente, exposta a material que contradiz exactamente aquilo que acabou de ser aplaudido. E não por coincidência. É estrutural. É desenho de sistema.

A questão verdadeiramente não é que uma fatia significativa da geração Z acredite em obediência conjugal. A questão é que este número provavelmente ainda vai crescer. Porque os algoritmos continuam a funcionar. Porque a indústria continua a ter incentivos para amplificar estes discursos. E porque a sala de aula, por mais inspiradora que seja, funciona duas ou três horas por semana, enquanto o TikTok funciona 24 horas por dia.

A questão que fica é incómoda: conseguimos transformar aplausos num auditório em mudança real, enquanto as redes sociais continuam a fazer o trabalho oposto à velocidade da luz?


© PÚBLICO