A última cicatriz do cancro
Há uma consulta que (quase) nunca acontece. Aí, o oncologista fecha o computador, afasta os exames da mesa e, antes de terminar, faz apenas uma pergunta:
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— E o amor? Como tem sobrevivido?
Não pergunta pelos marcadores tumorais. Nem pela tomografia. Nem pelos efeitos da quimioterapia. Pergunta pela intimidade. Pelo corpo. Pelo desejo. Pela vergonha. Pela relação que o/a doente tem consigo próprio/a e com quem regressa a casa ao seu lado.
Essa consulta quase nunca existe. E, talvez por isso, haja tantas pessoas que superam o cancro, mas continuam a perder uma parte de si.
A medicina habituou-nos a celebrar a sobrevivência. E bem. Nunca tratámos o cancro tão bem como hoje. Tumores outrora fatais são agora curáveis. Outros transformaram-se em doenças crónicas. Milhares de pessoas assistem ao crescimento dos filhos, conhecem os netos, regressam ao trabalho, fazem planos para a reforma. Cada novo tratamento acrescenta meses, anos e, por vezes, décadas de vida.
Mas a pergunta tornou-se inevitável. Quando conseguimos prolongar a vida, estamos verdadeiramente a cuidar dela?
Há uma ideia profundamente enraizada na nossa cultura: quando alguém recebe um diagnóstico de cancro, tudo o resto deixa de importar. O desejo pode esperar. A intimidade pode esperar. O casamento pode........
