Agricultura e ambiente não são inimigos, senhor ministro
Dirijo-me a V. Ex.ª na qualidade de cidadão, dirigente de uma organização não-governamental de ambiente (Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural) e presidente da Mesa da Assembleia Geral da Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente (CPADA), na sequência das suas recentes declarações públicas que apelam ao chamado “bom senso”. Num Estado de Direito democrático, o bom senso deve traduzir-se em responsabilidade política, respeito institucional e compromisso com a coesão social — especialmente por parte de quem exerce funções governativas com impacto direto no território, nas comunidades rurais e no futuro coletivo.
Contudo, várias intervenções recentes de V. Ex.ª têm recorrido a um discurso populista, simplificador e polarizador, que cria uma divisão artificial entre setores que, na realidade, dependem profundamente uns dos outros: o ambiente e os seus defensores, a agricultura, a atividade cinegética e outros usos do território, incluindo mineração e energias renováveis. Esta narrativa, para além de tecnicamente falsa, é politicamente perigosa e socialmente prejudicial.
Num contexto democrático, não vale tudo para mobilizar apoio político. Um ministro da República não deve — nem precisa — disputar com a extrema-direita o terreno da polarização, da amplificação de ressentimentos ou da criação de inimigos internos. A função governativa exige unir, mediar e construir pontes, não aprofundar fraturas sociais para ganhos imediatos.
É fundamental afirmar com clareza: o setor da conservação da natureza é, há décadas, aliado natural da agricultura sustentável, da gestão cinegética responsável, do ordenamento florestal e das atividades tradicionais que estruturam as paisagens rurais de Portugal. Trabalhamos diariamente com agricultores, proprietários, autarquias, cooperativas, gestores florestais e empresas, desenvolvendo soluções baseadas na ciência, na monitorização e no conhecimento técnico.
Essa colaboração não deriva de convicções ideológicas, mas da evidência científica que liga diretamente a saúde dos ecossistemas à viabilidade económica........
