A propaganda da desumanização
Há uns anos estive na Cisjordânia, em territórios palestinianos ocupados por Israel. Vi muros, checkpoints, colonatos, estradas separadas e famílias divididas por fronteiras físicas e burocráticas. Na altura, pensei que aquela divisão pertencia ao território. Percebi depois que ela atravessou fronteiras e se instalou também em nós: na linguagem, na opinião pública, na forma como olhamos para a dor dos outros.
Hoje, falar da Palestina, de Gaza, de Israel, do Líbano, do Irão, dos reféns, das crianças mortas, dos hospitais destruídos, dos médicos e jornalistas assassinados já não é, para demasiadas pessoas, uma conversa sobre direitos humanos. É um teste ideológico.
A primeira reação raramente é o luto. É a classificação. Quem é a vítima? Quem é o agressor? De que lado está quem denuncia? A que campo pertence quem sofre? Ou, pior ainda: a indiferença.
Se condenamos a destruição de Gaza, somos imediatamente colocados num campo político. Se falamos da ocupação, dos colonatos, da fome ou da destruição de hospitais, somos acusados de parcialidade. Se recusamos transformar vítimas em números abstratos, dizem-nos que estamos a escolher um lado. Como se recusar a desumanização fosse uma posição partidária.
Foi também isso que a Eurovisão tornou visível. Em vez de se discutir a dimensão humana da tragédia, tudo foi reduzido a trincheiras ideológicas. Boicotar Israel passou a ser “coisa da esquerda”. Defendê-lo passou a ser “coisa da direita”. Até a cultura foi absorvida por esta lógica tribal que transforma direitos humanos em guerra de........
