O tempo de Seguro
Uma frase célebre diz: “O político pensa na próxima eleição; o estadista na próxima geração.” Nos últimos anos, a política portuguesa tem sido dominada não por estadistas mas por políticos, cuja preocupação central consiste em chegar ao poder e aí operar para vencer a disputa eleitoral seguinte.
O exemplo acabado deste tipo de personagem é António Costa. O antigo primeiro-ministro é um político hábil que, com reconhecida astúcia, alcançou o poder e obteve importantes vitórias eleitorais. Mas não sabia o que fazer com elas, para além da gestão de curto prazo. Nunca teve um projeto para o país. A sua política consistia em “navegar à vista” (o mesmo que faz agora na presidência do Conselho Europeu).
Ainda somos herdeiros desse tipo de governação. A economia baseada no turismo e nos baixos salários – que gerou uma ilusão de prosperidade – deixou muita gente sem capacidade para aceder a bens básicos, começando pela habitação. A política de imigração e a incapacidade para fornecer os serviços indispensáveis à integração dos imigrantes geraram desequilíbrios na sociedade portuguesa que levarão tempo a corrigir. Os seus efeitos imediatos em termos políticos estão à vista com a ascensão da extrema-direita, aliás favorecida por Costa como estratégia de enfraquecimento do centro-direita.
Infelizmente, Luís Montenegro parece ser um político com a mesma incapacidade de ver para além da próxima eleição. Também ele parece estar obcecado com a sua sobrevivência política a todo o custo, com alianças à esquerda e à direita, mas sem mostrar uma visão de conjunto para Portugal. O que pretende Montenegro? Qual a sua visão sobre a educação e a ciência? Sobre o nosso modelo económico? Sobre o papel de Portugal na esfera internacional? Para além de declarações circunstanciais, ninguém sabe.
É certamente verdade que Montenegro não tem as condições políticas que Costa tinha e criou para si mesmo, quer durante a “geringonça”, quer na maioria absoluta. Podemos até dar-lhe o benefício da dúvida e pensar que, em circunstâncias politicamente mais favoráveis, talvez conseguisse articular meia dúzia de propósitos políticos consistentes já que, por vezes, a ocasião faz o estadista. Mas a verdade é que não o sabemos, a sua história pessoal não denota um percurso reflexivo nem capacidade para emergir da luta política quotidiana. E, em qualquer caso, não é provável que venha a beneficiar de uma base política mais alargada do que a frágil maioria relativa atual para aplicar um programa com consequência.
O estilo de Seguro é diferente do que temos visto entre nós nos anos mais recentes. Mobiliza-se para as grandes causas, mas não para as polémicas do dia-a-dia. Manifesta uma surpreendente falta de à vontade em relação à pequena política. Mas sabe centrar-se no que é mais importante com grande perseverança
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É neste contexto adverso que surge a eleição de António José Seguro (A.J.S.), com uma maioria que lhe confere especial legitimidade política. Sendo um político circunspecto, com um discurso moderado e que alguns consideram “redondo”, A.J.S. tem a vantagem de não estar de todo focado no curto prazo. Nesse aspeto ele é um anti-Montenegro, ou um anti-Costa. Quem esteve atento aos seus discursos e entrevistas durante a campanha eleitoral percebeu com certeza que ele está voltado para as questões de fundo: a defesa da integridade da Constituição; o valor da estabilidade política; a possibilidade de acordos de regime para reformar o país nas áreas mais críticas; a importância da coesão social; a prevalência da ética pública como barreira contra os interesses particulares; o regresso à centralidade da construção europeia, etc.
O estilo de A.J.S. é diferente do que temos visto entre nós nos anos mais recentes. Mobiliza-se para as grandes causas, mas não para as polémicas do dia-a-dia. Manifesta uma surpreendente falta de à vontade em relação à pequena política. Mas sabe centrar-se no que é mais importante com grande perseverança. O tempo político em que se insere é de longo alcance. Está preocupado com a próxima geração e não com a próxima eleição. Por isso, pese embora a dificuldade do contexto e o poder limitado do Presidente da República no nosso ordenamento constitucional, a tomada de posse de António José Seguro, neste dia 9, é um sinal de esperança e um tempo novo para Portugal.
O autor foi apoiante da candidatura de António José Seguro a Presidente da República e membro da sua Comissão de Honra. Escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
