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O Coração Ainda Bate. As supermulheres

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09.03.2026

Nunca a minha intolerância à falta de respeito pelo outro foi tão evidente. Isto vai de quem está no multibanco e faz dezassete pagamentos sem olhar para trás à canção com letra machista e misógina. Não se chama wokismo. Não inventem o que já estava inventado e se chama respeito. Está comigo desde sempre, tendo aumentado com a proliferação de gente que pode ser negra e racista, mulher e machista, pai e misógino. Um dos grandes problemas deste tempo é as pessoas não pararem para pensar antes de falar. Por que razão sou contra os imigrantes? Por que razão as mulheres ganham salários mais baixos? Por que razão os homossexuais têm de continuar a ser perseguidos?

Esta crónica segue na ressaca do Dia da Mulher. Talvez as datas tenham vindo a perder importância porque as causas estão mais vivas e acesas no nosso quotidiano. Sinto-o e penso sobre elas.

A minha mãe achava que devia partilhar tudo o que se passava na nossa vida com o meu pai. O meu pai não achava o mesmo. Durante décadas ocultou dela e de nós a sua outra vida.

Cresci com um pai machista, respeitando-o e admirando-o por outros motivos. Não fui a tempo de tentar mudar o meu pai. Não me apeteceu comprar essa luta. Em vez disso segui a minha vida muito livre. Mas, agora, sabendo que muitos estudantes universitários normalizam no namoro uma dinâmica tóxica e fisicamente violenta, tento reflectir sobre o futuro. Dei comigo a pensar sobre o facto de mulheres que conheço, bonitas, emancipadas, economicamente seguras, terem necessidade de partilhar tudo com os seus namorados e maridos, como se lhes devessem a vida, numa espécie de servidão não consciente. A fidelidade não passa por contar ao outro todos os passos que damos, mas respeitá-lo a ele e à relação em qualquer circunstância. As mulheres acham que devem prestar contas de tudo o que fazem e os homens fazem de contam que prestam. A diferença é grande.

Esta questão não é um pormenor, não é. As mulheres entregam aos seus namorados e maridos detalhes da sua vida ou das suas intenções ou das intenções dos outros como se tivessem um pacto incondicional e cego. A lealdade não é isto. Os homens raramente o fazem. Hoje em dia, se tiver de dar um conselho a alguma mulher mais nova, direi, sem hesitar, não contem tudo aos vossos namorados. Eles nunca vos contarão tudo o que fazem. Eu continuo a ser uma romântica, mas o romantismo vive de momentos, de um encantamento e da surpresa do outro. Idealmente a surpresa sobrevive a tudo, até ao passar dos anos.

Talvez avaliando esta entrega desmedida das mulheres, que abdicam muitas vezes de viver em pleno as suas vidas, sacrificando-se pela relação, de forma desigual, diria que muitas delas acham que há um preço a pagar por terem um marido ou companheiro. Elas que ganham tanto ou mais que eles. Elas que asseguram a dinâmica da casa, que cozinharam e pensaram na roupa por lavar, nas contas que se esqueceram de pagar, as mulheres que estão no ginásio ou na depilação, para não se descapitalizarem, enquanto ao mesmo tempo asseguram remotamente o funcionamento da família.

O principal inimigo das mulheres são as próprias mulheres: são elas que se boicotam a toda a hora, quando acham que há um preço a pagar por terem um companheiro a quem devem tudo, até os seus incalculáveis sacrifícios. As mulheres deviam lembrar-se que a maior parte dos homens desmoronava sem a eficácia ou a organização delas. Sem o afago no final do dia ou o prato quente quando chegam a casa. Elas normalmente mais estouradas que eles, mas ainda a pensarem neles. O nosso problema é não percebermos que não somos mães dos nossos maridos. E que se eles conseguem ser autónomos fora de casa, também podem ser crescidos quando estão connosco.

As mulheres têm superpoderes e facilmente se esquecem disso.

O coração ainda bate.


© PÚBLICO