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A democracia não se “ensina” na escola: cria-se condições para que se aprenda

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27.02.2026

Perante tudo aquilo que está atualmente a passar-se no mundo, a educação para os valores democráticos torna-se mais premente do que nunca. Desde o início da escolaridade, o sistema de ensino tem um importante papel a desempenhar, do qual não pode demitir-se. Mas há que pensar na melhor forma de o fazer, que é sempre — e como não poderia deixar de ser —​ aquela que implica uma transformação mais profunda dos alunos.

É que, ao contrário do que poderia pensar-se, a democracia não se ensina com discursos sobre os valores democráticos, por mais eloquentes que estes possam ser. A democracia aprende-se através da imersão numa prática pedagógica assente nos valores e instrumentos democráticos, concretizada através de vivências consistentes, coerentes e continuadas no tempo.

A boa notícia é que a matéria-prima para o desenvolvimento de valores democráticos está ao nosso alcance. E está ao nosso alcance todos os dias, a todo o momento: pressupõe o envolvimento dos alunos na gestão da vida escolar, encontra-se nas relações que naturalmente se tecem entre as crianças e implica a ousadia de pensar com a sua própria cabeça.

Imersão na participação democrática

Para se apropriarem das regras de participação democrática, é essencial que as crianças tenham oportunidade de ter voz ativa na planificação das atividades pedagógicas, na construção das regras de conduta, nas decisões relativas às atividades escolares e na gestão dos espaços comuns. Mas, quando as crianças têm a possibilidade de participar nas decisões que lhes dizem diretamente respeito, também têm de compreender que a liberdade implica sempre responsabilidade.

Liberdade implica responsabilidade!

Quando as crianças são envolvidas nas decisões que dizem respeito à vida escolar, ficam comprometidas com o respeito das resoluções em que participaram. Neste caso, procura-se que esse cometimento seja assumido de forma interiorizada, não porque o professor exerça externamente essa forma de poder sobre o aluno, mas sim porque a criança se encontra vinculada ao próprio processo decisório. Como tudo quanto é interiorizado, este processo é um longo caminho, com avanços e retrocessos. Mas este é o caminho que vale a pena ser percorrido.

O papel da gestão de conflitos

As relações interpessoais constituem, por excelência, o laboratório onde se ensaia o diálogo e a capacidade de se colocar no lugar do outro, essenciais para a construção dos valores democráticos A existência de um instrumento na aula onde as crianças, ao longo da semana, possam registar os acontecimentos (Jornal de Parede) e, posteriormente, um momento semanal durante o qual possam dialogar sobre as ocorrências registadas (Assembleia de Turma) é determinante para desenvolver os valores do respeito, da tolerância, da compreensão e da solidariedade, promovendo a capacidade de escuta e de se colocar no lugar do outro, que estão na base da empatia.

Desarmadilhar o gatilho da ação-reação

O facto de haver um delay entre o acontecimento e a discussão do mesmo constitui uma oportunidade para desarmadilhar o gatilho da emoção, interrompendo o fenómeno da ação-reação, que retroalimenta a violência. A prática continuada de gestão de conflitos faz com que o intervalo entre o desencadear da emoção e o aparecimento da resposta emocional se torne cada vez mais longo. Desta forma, fomenta-se a avaliação reflexiva, por natureza mais lenta, conquistando tempo para pensar na resposta mais apropriada para lidar com a situação em causa, em vez de reagir de forma automática e condicionada, refém das emoções e instintos mais imediatos.

A prática desportiva é construtiva para ensinar as crianças a cumprirem as regras do jogo, preparando-as para lidarem com as vitórias e as derrotas. Há que aprender a saber ganhar, sem presunção, mas também a saber perder, respeitando os adversários com fair play.

A importância do exemplo

Os adultos, nomeadamente os professores, têm um importante papel de modelagem dos comportamentos dos alunos, através das ações que praticam todos os dias. As crianças são observadoras atentas e sensíveis, aprendendo mais através da observação direta do que dos discursos proferidos, sobretudo se estes não forem congruentes com as atitudes. Assim, a coerência entre as palavras e as ações é fundamental para que os adultos se transformem em modelos de referência para as crianças, inspirando-as através do seu exemplo.

O desenvolvimento do pensamento crítico

Num mundo em que o acesso ao conhecimento deixou de ser suficiente para processar e digerir tanta informação disponível, a condição fundamental para nos relacionarmos com o conhecimento passa a estar centrada no exercício do pensamento crítico. Sem este exercício da crítica, a informação tende a tornar-se inútil, porque, embora acedamos aos seus conteúdos, não somos capazes de nos relacionar com eles, nem tão pouco de fazer frente à subjetividade desmesurada prevalecente nos nossos dias, que nos influencia para seguir as opiniões que os outros nos oferecem já formatadas.

É por este motivo que, hoje em dia, se torna mais importante do que nunca desenvolver o pensamento crítico das crianças desde tenra idade, exercitando a prática do espanto, que pressupõe humildade intelectual para reconhecer quando não se sabe ou evitar partilhar opiniões sem as amadurecer, ousando pensar com a sua própria cabeça e confrontar o seu pensamento com o dos outros.

A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990


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