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Perguntar para uma amiga

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Recebi esta carta de uma amiga a propósito do Dia Nacional do Doente com AVC (Acidente Vascular Cerebral), que se celebra no dia 31 de março. Não tenho respostas, mas, se alguém tiver, partilhem-nas comigo. Tudo farei para que cheguem até ela.

Espero que esteja tudo bem contigo. Como és perita em economia da saúde, gostava que me ajudasses a perceber algumas das coisas que se passaram com o meu pai, que recentemente sofreu um AVC.

Como sabes, os meus pais já têm os dois mais de 80 anos; o meu pai fará 90 anos em outubro deste ano. Já te contei várias vezes que são um exemplo de envelhecimento ativo: atividades desportivas, universidade sénior, amigos com quem vão ao cinema, teatro, visitar museus e passear. Ainda são autónomos e independentes. Têm as doenças normais e esperadas das vidas longas, mas tudo controlado e vigiado nas especialidades adequadas.

Em novembro do ano passado, o meu pai caiu perto de casa, partiu a cabeça e teve que ir para o hospital. Não consegue lembrar-se do que aconteceu. Chamaram o INEM e foi para o hospital da área de residência, onde foi cosido e fez uma TAC (sem nada a assinalar). Referenciaram-no para a Unidade de Saúde Familiar (USF) onde pertence para fazer o penso até ser necessário. Não houve consulta com médico de família nem qualquer outro tipo de seguimento por parte do hospital. Diz-me uma coisa: não era suposto haver agora, com a criação das Unidades Locais de Saúde, maior integração entre os hospitais e as USF?

Há cerca de duas semanas, começou com queixas de equilíbrio e a ficar apático. Começámos a achar que era a idade a manifestar-se, afinal, quase 90 anos são quase 90 anos! O meu pai também começou a precisar que a minha mãe o ajudasse a apertar alguns botões da camisa.

A minha mãe foi ficando cada vez mais preocupada. Um dia destes, telefonou para a USF para marcar uma consulta. Disseram-lhe que só através do SNS24. Ligou e lá apareceram os bombeiros. A situação do meu pai não lhe dava uma pulseira de cor 'urgente' e, atendendo aos tempos de espera nas urgências, acharam melhor mandar para a USF, onde nessa tarde acabou por ter uma consulta.

Nessa consulta teve diagnóstico de síndrome vertiginoso, para o qual foi medicado. Olha, não há um processo clínico eletrónico que pode ser acedido por todos os prestadores do SNS? Achas que a médica não conseguiu ver que o meu pai tinha caído em novembro?

No dia a seguir, acordo às 6h30 com uma mensagem do meu irmão a dizer que o meu pai tinha ido para um hospital central de Lisboa com 'Via Verde AVC'!

Pouco depois das 7h, uma médica desse hospital telefona à minha mãe a dizer que não havia nada a fazer. O meu pai tinha sofrido um AVC hemorrágico, que se tinha iniciado há algum tempo. Não havia nem tratamento nem medicação que se pudesse fazer, pois já tinham decorrido todas as janelas de tempo adequadas.

E agora? Achas que algum médico vai deixar de olhar só para a data de nascimento do meu pai e ver que ele ainda tem potencial de recuperação com a fisioterapia adequada? Ainda está vivo, lúcido, fala e constrói memórias acertadas. Ou estaremos entregues às decisões da inteligência artificial onde não há casos como os do meu pai para alimentarem o algoritmo?

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O meu pai levou mais de 36 horas até ser transferido. Explica-me uma coisa: não era suposto haver articulação entre os diferentes níveis de hospitais? 'O doente no centro do sistema' quer dizer exatamente o quê?

O AVC do meu pai, com as queixas que ele tinha, podia ter sido diagnosticado antes de chegar à fase do 'não há nada a fazer'. A minha mãe fez tudo o que pôde, dizia-me que tinha vontade de ir para a urgência do hospital, mas sabia que não os receberiam se não fossem referenciados pelo SNS24. Diz-me: apenas um episódio de urgência não é mais barato do que o episódio de internamento pelo qual o meu pai está agora a passar? Achas que a Direção Executiva do SNS vai rever a Triagem de Manchester para os idosos, já que subestima a urgência nesse grupo etário? Achas que nunca mais vamos poder ir a uma urgência no hospital ou no centro de saúde sem antes telefonar?

E agora? Achas que algum médico vai deixar de olhar só para a data de nascimento do meu pai e ver que ele ainda tem potencial de recuperação com a fisioterapia adequada? Ainda está vivo, lúcido, fala e constrói memórias acertadas. Ou estaremos entregues às decisões da inteligência artificial onde não há casos como os do meu pai para alimentarem o algoritmo?

E com que apoio podemos contar para a minha mãe?

Espero que consigamos encontrar-nos em Lisboa durante a Páscoa!

A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990


© PÚBLICO