Da Rússia, com temor
Todos os dirigentes europeus têm feito declarações regulamentares sobre o perigo russo.
A Europa entende que existe uma concentração ameaçadora de agressividade e vodka nos círculos dirigentes de Moscovo e, não sabendo por que atalhos se move o pensamento de Putin, decidiu ter medo.
Não é certo que o medo dos políticos europeus seja real. Não é real, apesar das suas declarações levemente ruborizadas, às vezes inchadas, mas sem outros sinais evidentes de inflamação. Os mais experientes entre todos, realmente resumidos à figura única do senhor Erdogan, são ainda menos declarativos e recusam qualquer sentimento menos cordial em relação à Rússia. Erdogan, tal como o intuitivo Trump e o Xi Jinping contra-confuciano, têm por certo que só existe uma coisa mais interessante que os princípios. São os interesses e a comunhão de interesses. Não o interesse destrutivo em preservar a honra ou as fronteiras, não o interesse maleável dos eleitores, mas o interesse da posse e da grandeza. Mas esse é o senhor Erdogan, um déspota, muito pouco estimado mas que ainda não cometeu metade das arbitrariedades de Mustafa Kemal, o pai da pátria turca.
Os outros políticos europeus não são como ele, são muito melhores. Entendem a política como um jogo elegante de aparências, com cimeiras e declarações. Movem-se como pavões numa capoeira estreita, são sensitivos e demonstram estados de espírito. São solidários, não fumam em público e têm medos – medos verdadeiros, existenciais. E por isso se encontram tolhidos há anos nos mares da governação doméstica, divididos entre agendas climáticas e de género, arrastados pelas ondas de imigrantes, amarrados à depreciação económica e, no fundo, paralisados pelo receio de não gostarem deles.
Os avanços de Putin sobre a sua fronteira sul, por cima da Crimeia e com os olhos postos nos Balcãs, foram há 10 anos suportados como compreensíveis – ainda podia ser a mãe Rússia a reclamar o direito aos filhos. A invasão da Ucrânia em 2022, a determinação dos ucranianos em não voltarem ao seio do império e as ameaças de Putin sobre todos os que manifestassem estima pela estouvada coragem de Kiev, obrigaram ao comprometimento dos países da Europa. Putin preferiu inicialmente despromove-los todos à condição de “NATO”, ele que já não podia contar com o Pacto de Varsóvia e foi também assim, ressuscitando ameaças e um discurso de imagética bélica, que os europeus adoptaram o medo e começaram, sempre com muito medo, a ajudar a Ucrânia. Para os políticos europeus o perigo russo foi a oportunidade de se unirem e quase saberem o que devia ser feito – e que quase fariam, se não tivessem medo.
Porém, o verdadeiro medo europeu não é o medo cenografado do urso ex-soviético mas o medo real de fazerem alguma coisa e depois existirem consequências. O medo dedicado aos russos tornou-se programático, é um estado de equilíbrio entre a obrigação de fazer alguma coisa e a conveniência de não fazer nada. A classe política europeia receia-se a si própria, receia desunir-se, de enfrentar problemas de dinheiro, os políticos receiam ser feridos ou ficarem sem luz, serem mal interpretados. No seu modo de ver, uma manifestação de pacifistas seria mais........
