À política o que é do futebol? Síiiiiiiii
O nacional-snobismo decretou que, na última semana, se falou tempo de mais no espaço público e mediático da saída inopinada de Cristiano Ronaldo da seleção. O mesmo movimento, nas suas mais variadas expressões, batizou como uma espécie de parolice coletiva a importância que se dava a um assunto tão fútil e vulgar como o futebol e, em particular, a seleção nacional.
A turba elitista não protestou por se falar pouco do regresso de Macbeth ao Dona Maria, da La Distance do Tiago Rodrigues na Culturgest, tampouco pela inexistência de divulgação da Carmen de Bizet, ópera que estreia este mês no CCB porque o São Carlos ainda está em obras. Protestou, em primeiro lugar, por se dar muita importância à coisa mais importante das coisas menos importantes: o futebol. Já agora, a frase, no mundo do futebol é atribuída a Arrigo Sacchi, ex-selecionador italiano, mas para quem aprouver uma referência mais digna, a também é dada paternida ao provocador Nélson Rodrigues.
A crítica evoluiu também para o campo da política, para, essencialmente, excluí-la deste assunto mais popularucho. A lógica é simples: político que se preze não fala de futebol, muito menos se deve meter em assuntos internos da seleção nacional. O primeiro-ministro foi, precisamente, criticado por alegadamente se meter no assunto. O Partido Socialista, através do líder parlamentar Eurico Brilhante Dias, disse ao Diário de Notícias que “esta intromissão do primeiro-ministro num assunto da bola, a ser verdade, é de um primeiro-ministro que se centra em assuntos que não lhe dizem respeito nem ao quotidiano das pessoas”. E acrescentou: “As pessoas acordaram hoje sabendo que Portugal foi o país onde o preço da habitação mais cresceu em toda a União Europeia no segundo trimestre, em termos homólogos, 16,5%. O preço dos combustíveis continua elevadíssimo. O preço da eletricidade e do gás vai aumentar, a prestação das casas vai aumentar de forma severa”.
Depreende-se das palavras do PS que Luís Montenegro desperdiçou a oportunidade de — nos dez ou quinze minutos em que, no total, esteve à conversa com Jorge Jesus, Pedro Proença e Cristiano Ronaldo — desbloquear o tráfego no Estreito de Ormuz e, quem sabe, convencer os ayatollahs, Trump e Netanyahu a colocarem fim ao conflito no Médio Oriente.
Percebe-se a preocupação do PS com excessiva importância dada ao futebol e com telefonemas inusitados. Primeiro, porque o penúltimo presidente da Assembleia da República do PS, Eduardo Ferro Rodrigues, convocou os jornalistas para uma conferência de imprensa nos Passos Perdidos em maio de 2018 para falar de Bruno de Carvalho e da invasão à Academia do Sporting. Quanto a telefonemas desnecessários, parece-me que nenhum dos três que Montenegro fez sobre Ronaldo é tão grave como ligar para administração da RTP sobre um cartoon, como fez o atual secretário-geral do PS quando era ministro.
A crítica não veio apenas do PS, mas também de um batalhão de comentadores precisamente com o mesmo argumento: com os combustíveis e o custo de vida a subir, é inaceitável o primeiro-ministro........
