O abandono da religião
1. Ao invés de um tempo de meras mudanças… vivemos um tempo, como nos alertava o Papa Francisco, de uma autêntica mudança de época; um tempo de convulsões, perplexidades, calamidades várias. Os sinais são múltiplos: a vertigem tecnológica, inabarcável, dissimulada, perigosa; os antagonismos políticos exacerbados; a política como arte de “organizar a cidade” com vista ao bem comum, transformou-se num campeonato gritado de slogans e clichês, guiada pelo algoritmo e pelas sondagens de opinião; a violência sistémica e a banalização do crime; a pobreza material e sobretudo moral; a deterioração das democracias, reduzidas a meras aritméticas parlamentares dos governantes de turno; a lei do mais forte, a perda do sentido do bem comum. Por outro lado, um jornalismo a perder o centro, e a constituir-se cada vez mais como um poder uniformizador de mentalidades, impondo novos e artificiais padrões de normalidade, baseado em narrativas construídas a pedido, em indignações selectivas e fact-checkings de ocasião; a autodeterminação e a liberdade humana proclamadas como valores absolutos; o relativismo que gangrena a vida em comunidade; a secularização que esvazia a experiência humana; a jaula da ideologias que aprisionam e isolam o Homem, tornando-o mais frágil, desenraizado e manipulável. Para vários autores, são múltiplas expressões de uma crise sem precedentes, cujas raízes antropológicas não deixam dúvidas: o que é o Homem?O que é o Bem e o Mal? O que é o Certo e o Errado? O que é a Verdade? Qual a causa do caos onde vivemos? O abandono progressivo da religião.
2. Construímos uma sociedade essencialmente materialista; tornámo-nos escravos do consumo, mas desfrutamos e apreciamos cada vez menos; temos casas maiores, repletas de máquinas e conforto, mas temos famílias cada vez mais diminutas, fragmentadas, desestruturadas; temos o último grito da tecnologia, mas temos menos tempo. Temos acesso ilimitado à informação, mas temos menos sabedoria (todas as opiniões são equivalentes); há mais gente em rotação nos prédios que habitamos, mas não conhecemos os vizinhos. Fazemos muitas caminhadas, muitas viagens, muitas escapadelas, mas esquecemo-nos do verdadeiro raide interior; corremos com eficácia contra o tempo, mas perdemos paciência, tranquilidade e serenidade. Construímos obsessivamente uma necessidade de nos reinventarmos a toda a hora e em qualquer lugar e, assim, construímos um mundo de lugares vazios, desabitados, um mundo de “não-lugares”. O resultado são gerações com um número crescente de “nómadas existenciais”, sem rumo preciso, sem quadro de referências, que estão em qualquer lugar, mas que não pertencem verdadeiramente a lugar nenhum, a nenhuma história, a nenhuma tradição, a nenhuma responsabilidade ou compromisso que vá para além da sua própria existência imediata, por........
