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Parabéns, Estados Desunidos da América

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02.07.2026

Neste 4 de julho os EUA assinalam os 250 anos da sua independência, num clima ambivalente e agridoce, meio santos populares meio velório. Para alguns, até a data do aniversário é fake: há duas outras muito mais catitas. Assim como a Revolução Francesa terá sido muito mais inclusiva do que a Americana – pelo menos na fase das guilhotinas.

Hoje, a palavra “revolução” conota convulsão, mas sua génese remonta ao astrónomo polaco Copérnico, que no século XVI usou-a a para descrever a rotação dos planetas de volta a um ponto preestabelecido – revolução significava restauração. Foi a Revolução Francesa e seu Terror que introduziram o significado no qual a velha ordem é ceifada para gerar um mundo e um homem novinhos em folha – se for preciso, à cacetada (será preciso).

Os revolucionários americanos buscavam igualdade política, não social. Os EUA nascem sem ancien régime nem aristocracia, uma república meritocrática de classe média, com um governo constitucional (lockeano na paz, hobbesiano na guerra). Os Pais Fundadores desconfiavam da democracia direta e das paixões inflamáveis por demagogos. Daí a o tripé instituciona: o Executivo, liderado pelo Presidente; o Legislativo, no Congresso eleito pela cidadãos; e o Judiciário, nos tribunais nacionais.

A Constituição americana beneficiou os homens brancos, mas abriu a porta para tudo o que se seguiu: a universalização do sufrágio (o voto feminino em 1920), a abolição da escravidão (em 1865) e o Estado de Direito, no qual todos, ricos e pobres, devem ser julgados sem abébias.

Direitos universais são um paradigma do Ocidente, um legado do Cristianismo com a Imago Dei – somos todos feitos à imagem do Criador, com uma alma imortal e pares em dignidade. Daí derivam desde o princípio do jurista italiano Cesare Beccaria (de que a pena deve ser proporcional ao crime e ter como função a sua prevenção e não a vingança), até ao abolicionismo – uma noção inédita na história da humanidade (a escravidão existia há milhares de anos e em todos os continentes e civilizações).

No século XVI, a densidade demográfica na América do Norte era rarefeita. Angus Maddison calculou a população nativa pré-colonial até o Rio Grande em 2 milhões de habitantes, contra os 350 milhões atuais. Considerando-se os 1,9 mil milhões de acres (1 acre = 4 metros quadrados) apenas nos 48 estados contíguos dos EUA, no período anterior aos europeus temos a proporção de uma pessoa para cada 950 acres — o equivalente a  720 campos de futebol! Isso é que era privacidade.

Por isso os EUA constituíram-se ao longo do tempo como uma nação de expatriados, imigrantes e refugiados, com terráqueos afluindo dos quatro pontos cardeais. Roosevelt celebrou o patriotismo dos “americanos hifenizados”: ítalo-americanos, sino-americanos, hispano-americanos, etc.  Esta semana, porém, só 29% dos Democratas disseram à NBC que têm orgulho de ser americanos (contra 90% dos Republicanos).

Talvez porque hoje, nos EUA, todos os grupos têm direito a  uma “cultura”, exceto um. Existe a “cultura negra”, a “cultura latina”, a “cultura asiática”,  a “cultura indígena”, etc.. Porém só com angústia e repugnância pode mencionar-se a cultura branca, que já não ousa dizer o seu nome. E contudo dela emanou o idioma comum, o sistema democrático pluralista, a tolerância, o reformismo autocrítico e a economia capitalista – que não vieram, sei lá, de Tombuctu ou das ilhas Galápagos. Mas murmurar essas obviedades é gorgolejar discursos de ódio dignos da Ku Klux Klan. Toda........

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