Lisboa: cidade armadilhada
A palavra urbanização significa, por um lado, a concentração de pessoas em cidades e, por outro, o facto de, historicamente, nos Estados, a cidade grande (a capital) servir de “elevador” social para os das cidades pequenas. Quando deixa de ser possível chegar à cidade grande – nem como estudante, nem como profissional e, mesmo, nem como político -, então ela está a falhar (e mesmo a trair) esse projecto de civilização: a escala de urbanização nacional. E tal acontece porque a cidade preferiu os públicos transnacionais, sejam investidores, turistas ou expatriados.
A cidade armadilhada é aquela que não pode abdicar da dependência externa (porque perde receitas e investimento), mesmo quando os ganhos da atractividade já são menores. Mas, ao continuar nesse processo, também entra em crise: perde população residente, perde diversidade funcional e capacidade reprodutiva. A cidade armadilhada vive neste duplo vínculo: tem de crescer para sobreviver; mas, ao crescer desta forma, destrói as condições da sua própria sobrevivência.
Lisboa é já uma cidade armadilhada. Como várias outras, aliás. A cidade armadilhada segue uma narrativa em várias fases: 1) a da promessa/crescimento (inserção na economia internacional); 2) a da dependência/saturação (da economia global); 3) a da expulsão (dos nacionais); 4) a da armadilha/o double bind/duplo vínculo (as cidades não conseguem parar e perdem ao continuar) e, finalmente, 5) a dos rendimentos decrescentes.
A cidade capital que se abriu às duas classes globais (por um lado, uma burguesia transnacional que pode viver e investir onde quer e, por outro, a miséria desqualificada do mundo) deixa de cumprir a sua função de urbanização nacional em escala (cidade pequena-média-grande), criando uma oscilação forte na frágil equação entre competição global e coesão nacional. Esta equação é como um jogo da corda: se a tensão for demasiado forte, quebra para um dos lados.
Mas, mais do que isso: torna-se um dos palcos de uma guerra económica de destruição criadora de tipo transnacional, com consequências sociais em que há mais perdedores do........
