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Quando o artista cai, a arte tem de cair com ele?

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25.08.2026

O bispo de Tarbes e Lourdes decidiu que os mosaicos de Marko Rupnik na Basílica de Nossa Senhora do Rosário serão cobertos. A decisão nasce das gravíssimas acusações de abusos sexuais, espirituais e psicológicos contra o antigo jesuíta e de uma razão pastoral que merece ser respeitada: algumas vítimas sentem aquelas obras como uma presença insuportável num lugar onde deveriam encontrar acolhimento e consolação. Não pretendo discutir a dor das vítimas nem transformar Rupnik numa vítima de coisa nenhuma. A questão que me interessa é outra e ultrapassa largamente Lourdes: quando condenamos moralmente um artista, devemos condenar também a obra que ele deixou?

A pergunta parece simples enquanto falamos apenas de Rupnik. Torna-se bastante mais incómoda quando abrimos um livro de História da Arte. Caravaggio matou um homem e viveu entre violência, rixas e fugas, mas ninguém pensa seriamente em cobrir A Vocação de São Mateus. Picasso dificilmente passaria hoje por modelo de relações afectivas saudáveis, mas Guernica não perdeu um centímetro de importância por causa disso. Wagner escreveu textos de um antissemitismo repugnante e continuamos a ouvir Wagner. Gauguin levanta questões morais gravíssimas acerca das relações que manteve com raparigas adolescentes no Pacífico e os museus não resolveram o problema virando os seus quadros para a parede. A História da Arte tem esta característica pouco conveniente para os nossos tempos: foi feita por seres humanos, e os seres humanos têm o desagradável hábito de não caberem nas categorias simples de bons e maus que tanto facilitam as discussões nas redes sociais.

Na literatura o critério seria ainda mais devastador. Se decidíssemos retirar das bibliotecas todos os........

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