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A Via Sacra do objeto artístico

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Enquanto cristão celebro a Páscoa, que é um marco religioso do catolicismo herdado do paganismo ancestral, tão ou mais profundo do que o Natal e muito menos desvirtuado que o último, estando os danos sociais e reputacionais para a compreensão do seu verdadeiro significado por todos nós, apenas prejudicado por meia dúzia de chocolates ocos em formas diversas e amêndoas cobertas de açúcar. Sabemos que, escavando na História, encontramos esta sequência de festividades comunitárias que vêm de tempos mais remotos do que as religiões escritas, e que estão frequentemente associados aos ciclos agrícolas e às preces por boas colheitas e clima mais favorável. Porque dantes, ao que parece, também havia tremendas tempestades, e havia longas canículas que, umas e outras, conforme se sucediam, subvertiam o bom clima propiciador do ciclo agrícola, devastavam as culturas e o gado e dificultavam a sobrevivência. Tudo isto exigia fortes manifestações comunitárias – tal como hoje assim acontece -, muitas vezes com sacrifício humano – tal como hoje assim acontece -, em prece a um ou vários deuses para que estabilizassem o clima – tal como hoje não acontece exatamente assim! Tudo isto muito, muito antes da utilização dos combustíveis fósseis, mas quando o clima já sofria alterações que as religiões escritas vieram explicar pela ira divina. Voltando à Páscoa, ao seu significado e ao paralelismo que tenho vindo a estabelecer com o objeto artístico contemporâneo, tudo se resume à via sacra que leva este objeto ao seu estatuto maior quando chega ao seu gólgota e, não sendo crucificado num sentido literal, também é erguido e exposto e, por isso, pedestalizado, recolhendo, mais tarde, a um sepulcro onde se espera que se conserve até ao fim dos tempos.

Contudo, ocorreu-me recentemente que esta viagem não está distante da Pessach judaica, também celebrada agora, também evocativa de uma viagem de sacrifício e também conducente ao atingir de um estatuto de superação e de valorização, pela libertação de um povo do jugo da escravidão.

Mas tenho, ao longo dos últimos anos, explorado este conceito da obra de arte em torno da via crucis e, por isso, cingir-me-ei, a ele.

Sem blasfémia, sem pecado, sem dessacralização do motivo religioso implícito, mas antes por um paralelismo dos momentos que Cristo viveu nessa via e que são celebrados, por estes dias, em estações, cada uma com a sua expressão e os seus inúmeros reflexos nos significados pessoais. Cristo nasceu por conceção divina e sobrenatural, cresceu, fez-se homem, amadureceu, expôs-se perante a sociedade, houve quem não o compreendesse, houve quem o rejeitasse , houve quem lhe devotasse a vida e lhe reconhecesse o seu valor e o significado da sua mensagem implícita, foi condenado, exposto na cruz, deposto num sepulcro onde se desmaterializou e se tornou parte de todos nós. Tudo isto para nos salvar.

Tal como a arte também nos salva, com uma força divina diferente, pela implosão do sublime em nós, pela construção de uma imagética do belo, que nos purifica das imagens sombrias com que a sociedade nos bombardeia diariamente.

Esta via sacra do objeto artístico também começa de forma quase divina, quase sobrenatural – e escrevo “quase” com a intenção de não ferir susceptibilidades – quando o artista idealiza a sua obra, quando lhe define um motivo, uma forma, um material, uma intenção, seja qual for o processo que utilize, tal como já abordei aqui no Observador, a propósito da entrevista a Pedro Cabrita Reis, da mesma forma que tive a oportunidade de explorar, noutras entrevistas que fiz ao longo dos anos, com artistas como Pedro Calapez, Ana Vidigal, Fernanda Fragateiro, Vasco Araújo, Gabriela Albergaria, entre outros.

Da ideação à materialização da obra cumpre-se uma nova estação em que o objeto ganha conceito e forma, independentemente da materialidade que adquira, seja digital, virtual ou real. Mas é quando se expõe ao olhar dos públicos, que se lhe atribui um valor fiduciário, tantas vezes com uma certa repulsa do seu criador ao ver o seu trabalho e as suas emoções precificadas, da mesma forma que os vendilhões mercadejavam à porta do templo.

Nesse momento, o objeto artístico perde uma ligação umbilicalmente direta ao criador, torna-se numa fonte de inspiração universal e ganha um novo estatuto, expondo-se para deleite de quem o acede, oferecendo sensações e leituras tão pessoais quanto o número de olhos que o veem, sendo, muitas vezes, “comerciado” sucessivamente, conforme as mudanças do gosto individual, da vida de quem o detém, ou do interesse mais específico na sua rentabilização para além do valor da arte, seja em galerias ou em leilões.

Por fim, e ainda que seja, na verdade, apenas um novo princípio – até porque, muitas vezes, é o começo da sua vida e o reconhecimento do seu estatuto enquanto obra “da” arte – o objeto artístico integra o museu ou a coleção e é oferecido a uma espécie de usufruto universal, é “pedestalizado” e reconhecido como um entre os melhores. Esta pedestalização do objeto artístico não é nem “um” fim, nem “o” fim. Tal como a morte e a ressurreição de Cristo foram para nos salvar, também o objeto pedestalizado nos salva de um mundo de mensagens instantâneas, sem tempo limite, sem verdadeiro conteúdo, para se poder manter o olhar fixo, sem mediação, apenas olhando em frente para o pedestal onde se consagra a arte, como numa igreja, de frente para o altar. Não é a morte que nos salva. É a ressurreição do objeto artístico enquanto essência da arte, e a sua legitimação, que nos recentra no mundo em que vivemos e que permitirá, mais tarde, contar a história da nossa salvação.

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