Como perder o controlo da narrativa em 9 atos
O PS esteve oito anos no poder, quatro deles com apoio parlamentar da esquerda, dois com maioria absoluta. Ao contrário do que se esforça agora por fazer crer, como se o país vivesse uma espécie de amnésia coletiva, o problema de acesso à Habitação não começou a 2 de abril de 2024, dia em que Luís Montenegro tomou posse como primeiro-ministro. Agudizou-se (e muito) durante o consulado socialista, que acordou muito tarde para o problema. Quando finalmente acordou, fez promessas absurdas, como aquela de uma “habitação adequada” para “todos os portugueses” até 2024, e teve ideias brilhantes, como o arrendamento coercivo, que, juraram-nos, iria pôr o mercado na ordem e os terríveis proprietários com as pernas a tremer.
Aliás, o julgamento político sobre os anos de governação socialista foi feito onde realmente importa, nas urnas. Por duas vezes. Nas eleições legislativas de 2024 e 2025, o PS só conseguiu ser competitivo no segmento das pessoas com mais de 55 anos. Dos 18 aos 54, os socialistas ficaram em terceiro lugar, atrás da AD e do Chega, sendo que quanto mais jovens (18-24) e mais qualificados (ensino superior) menos votaram no PS. A diferença no comportamento eleitoral registado pelos investigadores João Cancela e Pedro Magalhães é particularmente gritante: o PS não levou um cartão amarelo; apanhou um duro castigo de (pelo menos) quatro anos aplicado pelas gerações mais novas e qualificadas. Aparentemente, aprendeu pouco ou nada com isso.
Luís Montenegro percebeu o que estava a acontecer ao país e fez uma escolha: centrar as políticas públicas nas pessoas com menos de 35 anos. O IRS Jovem, de duvidosa justiça intergeracional, aumentou objetivamente o rendimento disponível desses trabalhadores. A garantia do Estado (40 mil novos contratos de crédito habitação jovem), a isenção de IMT e de imposto de selo (mais de 100 mil beneficiários), tendo sobreaquecido o mercado, deu condições únicas para compra da primeira casa.
Está-se a construir consistentemente mais do que se estava a construir nos anos anteriores. Ao mesmo tempo, o apoio às rendas também aumentou. Foi aprovada a redução do IVA para a construção, um novo regime de licenciamento urbanístico e um novo regime para heranças indivisas. Em paralelo, alargou-se o passe ferroviário verde a todo o país, sendo que a mobilidade (barata) é parte da resposta à crise de Habitação. Além disso, a imigração começou a ser regulada, o que, não sendo causa única, como uma parte da direita gostaria que fosse, teve um impacto objetivo no número........
