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Quantos hotéis cabem numa cidade a menos?

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03.09.2026

São oito da manhã numa rua do centro de Lisboa. Um autocarro de passageiros pára à porta de um hotel para deixar um grupo de hóspedes; atrás dele, a carrinha de um fornecedor espera a sua vez. O TVDE que traz o hóspede seguinte não tem onde encostar — do outro lado da rua está a esplanada de um restaurante — e fica em segunda fila. Uns metros adiante, à porta de um edifício devoluto, o lixo que as equipas de Higiene Urbana não recolheram vai-se acumulando, até que alguém o fotografa e o transforma numa queixa no portal Na Minha Rua.

Nenhum destes problemas foi criado por aquele hotel, que faz exactamente aquilo para que foi licenciado. Foram criados por uma rua a quem se pediu, ao mesmo tempo, mais coisas do que aquelas para que foi desenhada — sem que ninguém tenha perguntado se as podia fazer todas.

Há sucessos que, de tanto se repetirem, deixam a certa altura de ser interrogados. O turismo em Lisboa é um deles. Durante mais de uma década, habituámo-nos a medir o seu êxito pelo número de hóspedes, de dormidas, de rotas aéreas, de hotéis inaugurados e de prémios internacionais. Cada novo recorde confirmava o anterior e alimentava o seguinte. Lisboa tornou-se conhecida, recuperou edifícios degradados em zonas centrais, atraiu investimento, criou emprego e encontrou no turismo uma das forças da sua revitalização económica.

Tudo isto é verdade. Mas já não é toda a verdade.

Entre 2019 e 2024, a oferta hoteleira de Lisboa cresceu cerca de 15%. Apesar disso, em 2025 a ocupação permanecia abaixo dos níveis anteriores à pandemia. O preço médio por quarto ocupado manteve-se praticamente inalterado face a 2024 e o rendimento por quarto disponível continuava 30% acima de 2019, em termos nominais. Ao mesmo tempo, segundo o Hotel Valuation Index 2026 da HVS — uma das maiores consultoras mundiais do sector —, estão identificados 32 novos projectos, com aproximadamente 2600 quartos previstos até ao final de 2028. Se todos se concretizarem, representarão um novo crescimento de cerca de 9% da oferta existente.

Estes números não anunciam uma crise. Pelo contrário: mostram um sector que continua a gerar receita, a atrair marcas internacionais e a justificar novos investimentos. A primeira objecção à ideia de que há hotéis a mais é, por isso, legítima. Se há investidores disponíveis, clientes interessados e projectos financeiramente viáveis, por que razão deve a cidade preocupar-se?

Porque a viabilidade de um hotel e a capacidade da cidade para o receber não são a mesma coisa.

Um hotel decide-se em função do investimento necessário, da procura esperada, do preço médio, da ocupação e do retorno. As contas da cidade são outras: quantas deslocações adicionais serão geradas, onde viverão os trabalhadores, como será abastecida a unidade, onde pararão os veículos, que resíduos produzirá e que........

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