Robin dos Bosques – Uma catarse da idolatria de esquerda
1 O mito de Robin dos Bosques
Poucos mitos ilustram tão bem a distância entre uma narrativa romântica e a respetiva realidade histórica como o de Robin dos Bosques.
No imaginário coletivo, Robin dos Bosques surge como um dos arquétipos supremos de justiça redistributiva – em especial, condensado na fórmula, assaz pedagógica e tantas vezes elogiada: “roubar aos ricos para dar aos pobres”.
As referências mais antigas a Robin dos Bosques surgem em baladas inglesas dos séculos XIV e XV – entre as quais se destaca a famosa “A Gest of Robyn Hode”, do final do século XV – onde o protagonista é essencialmente um “yeoman”, um pequeno proprietário rural que, inclusive, aparenta alguma proximidade à nobreza.
Nestas referências originais, o eixo narrativo que torneia a figura de Robin dos Bosques não é um programa redistributivo, mas, na realidade, um símbolo de resistência à opressão do regime vigente, em especial perante a venalidade dos oficiais da corte.
A posterior domesticação do mito – por via de adaptações literárias e, mais tarde, cinematográficas – foi, porém, responsável pela cristalização da ideia de Robin dos Bosques como uma espécie de protossocialista “avant la lettre”.
Nesse sentido, deverá salientar-se que a fórmula “roubar aos ricos para dar aos pobres” é, afinal de contas, uma construção romântica tardia, que converte um puro rebelde numa espécie de patrono simbólico do confisco, ainda que aparentemente legitimado por um ideal de resistência à arbitrariedade do poder.
Esta viragem simbólica em torno da figura de Robin dos Bosques – que foi e continua a ser, em larga medida, apadrinhada e retomada por alguma esquerda política – permitiu, por paradoxal que pareça, a sua elevação a ícone da própria arbitrariedade, desde que revestida de uma específica intenção “social” e, mais amplamente, ancorada numa versão maximalista do ideal........
