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O Frankenstein da Ideologia de Género

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As alterações à lei n.º 38/2018, de 7 de agosto, de mudança de género, têm sido vistas como um retrocesso  da ciência. É o que se ouve  no podcast de Maria Castelo Branco. Ou no discurso acalorado de Isabel Moreira que, no Parlamento, veio  mais uma vez lembrar Gisberta da Silva, transexual  assassinada em 2006 e enterrada num poço. O Afonso Reis Cabral contou-nos muito bem o que aconteceu, sem demagogia, antes com boa literatura.

Quem não favorece a agilização destes processos é um insensível ao sofrimento alheio, um atrasado mental. E que a religião enviesa a inteligência, esquecendo-se assim que a Igreja Católica é a única religião que admite no seu seio uma Academia Científica, a Academia pontifícia da Vida, a qual integra cientistas de todos quadrantes intelectuais. E nem a propósito, na semana que vem a Igreja Católica celebra a Ressureição de Jesus Cristo, o único homem que venceu a morte e o sofrimento, que é o fulcro deste assunto que hoje aqui me trouxe.

No tabuleiro das opiniões tudo tem valor mas nem tudo vale o mesmo. No caso referente à lei em questão,  quem nos dá  o melhor lance? Serei eu um “monstro” indiferente a quem sofre? Acontece é que estou atento à pessoa em todas as suas dimensões,  entendendo que há uma natureza  humana a proteger, por isso me chamam “conservadora”; e também “radical”, e com isso me congratulo porque é dizer que vou à raiz das coisas.

Sempre fui assim, e por isso tirei filosofia. O ODS 5, e as diretivas europeias  ficam muito aquém das minhas  expectativas enquanto ser humano . Em vez de querer cuidar das mulheres e homens em toda sua diversidade,  eu vou mais longe e quero é  principalmente olhar para  cada pessoa na sua totalidade.

Neste ponto estou com os profissionais de saúde e cientistas que em Portugal e lá fora  assim o fazem, com base em evidência científica que não é tão divulgada como a do mainstream wookista que se afirma como a salvação dos nossos tempos. A  este propósito as três damas do podcast Lei da Paridade (todas lindas e maravilhosas, o que me dá muita inveja; já quanto à inteligência deixam muito a desejar, não que a não tenham, mas não a saberão usar…) acham hilariante a confusão nunciana com o woke frigideira, e lamentam a Maria não ter passado, por osmose, a sua  homossexualidade ao deputado do CDS (com o PSD e o Chega, responsáveis por uma alegada reversão da autodeterminação de género). E só elas – pois não –  é que sabem distinguir entre pessoas trans e pessoas intersexo!

Aposto nas pessoas e na medicina que sabe não estar na posse de todos os factores de que é feita a vida.  Onde estava o homem quando tudo começou? Não vou no com Mary Shelley – play God só mesmo God –  e prefiro a medicina do dr. Schweitzer, que abandonou uma universidade  alemã para se dedicar à saúde de indígenas do Gabão, que o chamavam  de “N´Tchinda“ , “aquele que corta bem”, e para isso lhe batiam à porta à meia noite.

Não é de hoje a vontade de ultrapassar as limitações da vida. Construir asas, criar vida a partir de restos mortais, de tudo se tentou, ideal que hoje permanece vivo, como se provou há dias no Dolby Theatre que o viu arrecadar três estatuetas. Salvar a humanidade, quem não o deseja?   Mas para isso é preciso saber do que se trata. Santo Agostinho bem chamou  ao homem a magna natura que, com Deus, é o objecto da filosofia  Mas pelo que acontece hoje, estamos muito longe de ter chegado a saber o que é o homem, há quem defenda que não há natureza humana. E será por isso que Ocidente está a rebentar pelas costuras!

Guerra, alterações climáticas, ódio, pobreza, terrorismo, racismo, a miséria e por aí adiante, para o sul, para o norte e a oriente. Uma coisa certa é que tudo isso me escandaliza, contraria as minhas expectativas, eu diria, contraria a minha natureza. Não  posso opinar, pensar, agir sem esta minha decisão de afirmar que existe uma natureza humana. Imago dei que está a ser – mais uma vez santo Agostinho – esquecida, obnubilada, manchada. Quem acha que não há natureza humana, não se venha queixar de que a ONU não serve para nada. Ou deTrump, que revela uma irracionalidade atroz. Importa portanto decidir se há uma natureza humana. Importa decidir o que é o homem. Quem “não” que se cale, ou então que seja como um tronco de árvore, mudo e calado, como dizia Aristóteles do céptico.

Nesta matéria tão delicada em que cada pessoa não é apenas um caso mas tem um passado único – mais de traumas do que de alegrias – não basta querer ajudar mas é preciso saber ajudar. A mãe que foi com o filho a uma consulta do SNS em Santa Maria e a quem a médica diz que afinal o seu filho é uma filha, e se oferece para contar, tem como resposta da psiquiatra: “Não, não precisamos de saber nada. Aqui a nossa função é ajudar a fazer a transição para tomar hormonas, para fazer a cirurgia, se for esse o caso, e, portanto, vai ter todas as condições. Não temos aqui que questionar, o que conta é a autodeterminação do paciente, o que ele quer ser.”  Esta medicina afirmativa prescinde de outros factores. Mas pergunto eu,  será em nome da ciência que um diagnóstico médico não vá à raiz da disforia de sexo, ignorando as comorbidades adjacentes, como o autismo, a homofobia internalizada, a autoginefilia, a dismorfia corporal?

Também o pai de uma rapariga autista, da escola  António Arroio, dá conta de um psiquiatra que deu ok  a um diagnóstico de disforia em 5 minutos: “ela é um rapaz!”. Será em nome da ciência que se faz tábua rasa do autismo desta menina? Não se deveria ter em conta que esse autismo a torna vulnerável por, ao contrário do que se chegou a pensar, a pessoa autista é social. Não estaremos aqui diante de um grande negócio, que se aproveita do contágio social? Sabemos que paga caro quem pede uma cirurgia. Mas o que não farão os pais pelos filhos?

E a mãe de uma menina de 11 anos  que vai à dra Zélia Figueiredo, que lhe diz que a mudança de rapariga para rapaz tem que ser feita porque mais vale um filho vivo que uma filha morta. E ali mesmo telefona para o colega endocrinologista para que o processo de bloqueamento hormonal se inicie rapidamente. E mesmo ali começa  a apresentar o menu das operações, a abrir o apetite começando com a de remoção dos seios. Em 20 minutos se decide a coisa. Como a empresa na hora! Como um Frankenstein fofinho, que não está para a dureza dos factos, salta etapas, tempo e prudência. Um médico que não sabe cortar. Porque para cortar os traumas não basta cortar os seios ou coser um pénis. É preciso saber e determinação. Há muito mais coisas no céu e na terra do que em toda essa  tua cirurgia!

Tenho números e pareceres científicos que mostram que a taxa de suicídio não sobe em todo o lado, e mostram o carácter nocivo dos bloqueadores da puberdade, das hormonas cruzadas e das cirurgias para crianças e adolescentes em sofrimento relacionado com o seu sexo biológico, recomendando avaliações abrangentes e terapias destinadas a identificar e abordar comorbilidades psicológicas  subjacentes e a neurodiversidade que frequentemente dispõem e acompanham a disforia de género.

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