Rubio foi a Munique: um trumpismo menos ameaçador?
Foi em 1963 que um prestigiado aristocrata alemão começou a organizar, em Munique, um encontro anual de líderes políticos, académicos, militares e espiões da Europa Ocidental e dos EUA para discutirem desafios de segurança. Ewald von Kleist tinha credenciais impecáveis como defensor das grandes tradições liberais e cristãs do Ocidente, foi parte da oposição clandestina à barbárie ultranacionalista, racista dos nazis e, depois, resistiu à sovietização comunista do país. O seu objetivo era reforçar os laços de confiança entre os dois lados do Atlântico e consolidar a comunidade de segurança ocidental. Uma comunidade de segurança consolidada é caraterizada por uma tal convergência de interesses e valores, de tal forma sólida e institucionalizada que a guerra se torna impensável como forma de resolver os conflitos entre os Estados que dela fazem parte.
Não há alianças sem tensões
É claro que sempre existiram tensões no seio da Aliança Atlântica. Foi em parte para as ultrapassar que a Conferência de Segurança de Munique foi criada. As alianças de sucesso gerem bem essas tensões e ultrapassam-nas. E é um facto que, desde 1949, a guerra se foi tornando impensável entre membros da Aliança Atlântica. Por muito que tenha havido divergências entre de Gaulle e Macmillan, entre Nixon e Brandt, ninguém pensava seriamente que isso poderia levar a um conflito armado. Esse nível de confiança mútua foi quebrado com as ameaças repetidas e sem precedentes de Donald Trump contra a Dinamarca a respeito da Gronelândia. Tudo isto para satisfazer o seu ego, visto que o governo de Copenhaga deixou claro que estava disposta a chegar a acordos mutuamente benéficos para mais bases ou investimentos.
É o cúmulo da ironia que os trumpistas venham agora dar lições sobre o risco de colapso do Ocidente, quando são eles uma das principais causas da sua divisão e do seu enfraquecimento.
Desta vez é diferente
A Conferência de Segurança de Munique tem sido um sucesso, globalizou-se, tornando-se num dos grandes palcos da diplomacia pública global. Pode não resolver sempre os problemas, mas pelo menos ajuda a clarificá-los. E para os que não estavam em negação, o significado de Trump 2.0 para a Europa devia ter ficado claro durante o discurso, há um ano, em Munique, do vice-presidente J.D. Vance. Nele, Vance negou que a Rússia fosse uma ameaça. E afirmou que a verdadeira ameaça na Europa para a nova Administração eram governos que não estavam dispostos a alinhar com Trump, como o governo dinamarquês relativamente à Gronelândia.
Mais, Vance aproveitou a campanha eleitoral alemã, então em curso, para apoiar publicamente a Alternative für Deutschland, um partido pró-russo e pró-chinês, muito elogioso de Trump e empenhado em desfazer a União Europeia. O resultado foi – apesar de, ou por causa dessa interferência descarada – a vitória da direita democrata cristã do chanceler Merz. O atual chefe do governo alemão não gostou da desfaçatez, e fez questão de usar o seu discurso deste ano em Munique para responder a Vance e deixar claro que recusa guerras culturais importadas ou qualquer alinhamento automático com o trumpismo. A agressividade de Vance foi tão contraproducente, que este ano Trump decidiu mandar um “polícia bom”.
Rubio, o polícia bom do trumpismo
Marco Rubio é, realmente, mais diplomático. No entanto, tal como Vance, tem grandes ambições políticas e percebeu que alinhar com Trump é a única forma de sobreviver num partido transformado num culto político. Não ia mudar pelos lindos olhos dos europeus. Sim, Rubio até valorizou a NATO, mas ignorou a União Europeia, e voltou a deixar claro que o atual governo americano quer o triunfo do ultranacionalismo nativista no modelo trumpista por toda a Europa. Rubio ignorou a Rússia, o maior e mais imediato perigo para a segurança dos europeus. Elogiou a Europa como berço da civilização ocidental, mas não recuou na promoção do trumpismo. Depois de Munique, foi mesmo fazer campanha por Órban, o grande amigo de Moscovo e de Pequim na Europa, que além dessas autocracias também elogia muito Trump e não perde ocasião de tentar minar a União Europeia.
Até concordo com Rubio que temos um problema de falta de amor próprio na Europa. Basta ver que temos devotos de Trump no nosso continente, alguém que é muito claro a afirmar que só se preocupa com os interesses dele e dos EUA. Também é verdade que temos excessivas divisões. O problema é que o trumpismo as explora e acentua. Finalmente, o que também é claro é que a esmagadora maioria dos europeus não se identifica com Trump, não o vê como um paladino da sua civilização. Pelo contrário, rejeitam-no e vêm-no como uma ameaça – não faltam sondagens recentes que o mostram. Os líderes europeus, na sua maioria, a acreditar nas declarações recentes em Munique, também parecem ter abandonado as ilusões. A questão é saber se vão agir em conformidade.
Perante uma grande potência agressiva há, diz-nos a história, três estratégias fundamentais: alinhar (bandwagon); integrar uma coligação para contrabalançar (internal/external balancing); ou adotar uma posição de neutralidade. Nenhuma das opções tem sucesso garantido, isso não existe na política internacional. Por exemplo, Espanha tentou a alinhar com Napoleão e acabou invadida e ocupada, com a sua família real aprisionada e substituída. Portugal tentou todas as opções para conter Napoleão, mas, sobretudo a segunda. Acabou por não conseguir evitar a ocupação francesa, mas manteve sempre um Estado funcional, graças à aliança inglesa e à opção de retirada estratégica para o Brasil.
Não estou a comparar Trump com Napoleão, isso seria um disparate quase tão grande como comparar Trump com Franklin Roosevelt. Estou a afirmar que ninguém no seu perfeito juízo confia em qualquer tipo de garantia do presidente americano. A lealdade é algo que ele exige a outros, mas não pratica. Mesmo que os europeus decidissem eleger governos trumpistas, isso não daria nenhuma garantia de que os EUA passariam a defender os aliados, se Trump considerasse que isso tinha custos para si. Trump é claro a dizer que os aliados são aliados um dia, e no dia seguinte podem não o ser. É esse o problema de base dos que – como Mark Rutte – aconselham o compromisso a qualquer preço com os EUA de Trump para estabilizar a relação transatlântica. Um mau acordo comercial não estabilizou as relações, encorajou o presidente a fazer exigências ainda mais extremas, por exemplo, relativamente à Gronelândia.
A novela das ilhas Chagos e as areias movediças do trumpismo
Estarei a exagerar? Vejamos um exemplo destes últimos dias. A Grã-Bretanha, até por estar fora da União Europeia e ter muito menos margem de manobra e peso nas negociações internacionais, fez de tudo para manter boas relações com Trump. Os britânicos controlam o arquipélago de Chagos, uma espécie de Açores no meio do Oceano Índico, um gigantesco porta-aviões natural, vital para vigiar e projetar poder militar. Os EUA têm lá, na ilha de Diego Garcia (ou, provavelmente, Dom Garcia, pois foi descoberta por navegadores portugueses), desde 1971, uma presença militar por acordo com Londres.
Depois de anos de negociações, a Grã-Bretanha decidiu entregar o arquipélago às Ilhas Maurícias em troca de um acordo de longo prazo para o uso da base. Envolveu sempre os EUA nas negociações esó fechou o acordo com a garantia do apoio da Administração Trump. Na terça-feira, o Departamento de Estado de Marco Rubio voltou a confirmar o apoio dos EUA ao acordo. No dia seguinte, Donald Trump veio dizer que o acordo afinal era um erro enorme, isto depois de já ter mudado várias vezes de ideias sobre a questão. Ao contrário dos maluquinhos pró (ou anti) Trump, não tenho problemas em criticá-lo ou dar-lhe razão, consoante os factos pertinentes. Neste caso, até tendo a concordar com os críticos do acordo. As ilhas eram despovoadas até ao século XIX. Até ao período colonial francês e britânico não tinham ligação às Maurícias – que estão a 2000 km. Com a descolonização as Maurícias aceitaram, em 1965, a separação do território em troca de milhões de libras, para passados anos mudarem de ideias. Poderão mudar de ideias relativamente a este novo acordo. Há agora um parecer do tribunal de Haia e algum ruído de países africanos. Mas também há queixas dos cerca de 1000 habitantes das ilhas, que para lá tinham ido trabalhar em plantações, e que, compreensivelmente, não gostaram de ter sido expulsos na altura da construção da base, e também não estão satisfeitos com este acordo. Sobretudo, numa era de conflitos crescentes, de desprezo frequente pela lei internacional, não parece avisado que Londres se fie num tratado para garantir o que antes tinha por direito próprio e controlo efetivo. No entanto, o ponto crucial para a questão que nos ocupa é que os EUA, literalmente de um dia para o outro, mudaram de posição e deixaram um aliado leal numa posição difícil. Trump não se condiciona sequer pelos compromissos institucionais assumidos pela sua própria Administração relativamente a um país que ele diz apreciar!
A única base sólida para as relações com Trump é mostrar força e deixar claras certas linhas vermelhas, reduzir as interações onde possível, diversificar parcerias com países mais fiáveis, nomeadamente, no Ocidente global. Os europeus fizeram frente a Trump na Gronelândia e recuou. Claro, com Trump não há, por definição, compromissos de longo prazo, apenas provas constantes de força. A maioria dos europeus parece ter finalmente percebido isso. Uma guerra comercial total também teria um custo político elevado para Trump, e a perda de acesso a bases europeias cruciais seria péssimo para a capacidade de projeção de poder norte-americano, como vemos agora, mais uma vez, no uso das Lajes no conflito com o Irão. O discurso de Rubio em Munique não mudou nada de essencial. Pode, quando muito, ser um bom sinal de que até Trump e os seus próximos se aperceberam de que transformar aliados em inimigos é algo a evitar. Se for assim, pode ser que ainda seja possível salvar alguma coisa da relação transatlântica, à espera de melhores dias. Já um alinhamento total com Trump é apostar em criar algo sólido com base em areia movediça.
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