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A caderneta do Mundial como espelho nacional

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03.06.2026

Há fenómenos que não precisam de justificação porque já vêm protegidos por uma imunidade cultural automática. A caderneta do Mundial é um deles. Basta aparecer para ser imediatamente aceite, celebrado e reproduzido, como se fosse tradição e não engenharia.

De quatro em quatro anos repete-se o ritual. As bancas esgotam cromos, as papelarias reorganizam prioridades, as trocas multiplicam-se e instala-se uma linguagem paralela feita de faltas, repetidos e pequenas euforias muito bem distribuídas. Tudo isto com uma normalidade que dispensaria qualquer pergunta não fosse o detalhe de não haver nada de particularmente natural nisto.

O fenómeno cresceu de forma quase silenciosa, mas a escala já não permite ingenuidade. Em 1970, a primeira caderneta de um Mundial tinha 270 cromos. Em 2026 aproxima-se dos 980. Não é um detalhe estatístico, é a prova de uma expansão contínua do próprio mecanismo de falta. Mais equipas, mais jogadores, mais páginas, mais ausência fabricada.

As saquetas acompanharam o movimento e o aumento não foi discreto. Em apenas duas décadas, o preço quase quadruplicou. O salto foi tão silencioso quanto eficaz: mais cromos, mais equipas, mais páginas e uma coleção cada vez mais cara de completar.

A isto chama-se inflação de desejo, embora raramente seja nomeada como tal. O discurso público insiste em tratar o fenómeno como leve, como inofensivo, como “coisa de infância prolongada”. Não é.

O sistema não funciona por inocência, funciona por desenho. Cria-se uma coleção incompleta, introduz-se aleatoriedade na obtenção dos elementos e deixa-se o comportamento humano fazer o resto. A falta deixa de ser problema e passa a ser motor.

Mas há aqui um ponto mais desconfortável. A falta não está na coleção. Está no próprio........

© Observador