menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

"Magnifica Humanitas" e a Guerra numa Era de IA

21 0
29.05.2026

Antes de entrar nos temas mais espinhosos do nosso tempo, o Papa Leão XIV ajuda o leitor através de uma síntese cuidadosa e fiel dos ensinamentos centrais da doutrina social da Igreja, desde Leão XIII até aos seus predecessores mais recentes. Sublinha a importância da família, fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher. Descreve o caminho perigoso escolhido pelos transhumanistas. Refere-se à importância da propriedade privada, aos seus limites e aos limites da própria intervenção do Estado. Reconhece os desafios ambientais, mas não os transforma num tema central, muito menos numa ameaça existencial. A maioria dos analistas considerá-lo-á mais moderado do que alguns dos seus predecessores.

A sua prioridade última torna-se inequívoca à medida que a encíclica se desenvolve. Magnifica Humanitas é, no seu núcleo, um documento sobre o significado de ser humano numa época em que os sistemas mais poderosos alguma vez criados estão a ser concebidos, muitas vezes deliberadamente, para simular, substituir e, em certos casos, sobrepor-se ao juízo humano. Para aqueles de nós que passaram carreiras na intersecção entre filosofia moral, economia e segurança nacional, isto não é uma questão abstracta. A encíclica surge no mesmo dia do Memorial Day, quando nos Estados Unidos se recordam e homenageiam aqueles que fizeram o derradeiro sacrifício ao serviço em guerras conduzidas, pelo menos em princípio, para preservar a humanidade de males maiores. A encíclica é também publicada num momento em que as negociações destinadas a pôr termo à guerra do Irão – que ameaça a paz mundial – parecem encaminhar-se numa direcção positiva. Surge igualmente numa altura em que programas e sistemas de IA – como “Mythos”, ainda não disponível ao público, bem como outras arquitecturas de software – já estão a testar e, em alguns casos, a ultrapassar os limites que o documento procura estabelecer.

Uma mudança de paradigma na forma como pensamos a guerra

A abordagem da encíclica ao conflito começa com um diagnóstico que merece muito mais atenção do que provavelmente receberá no meio dos comentários sobre inteligência artificial. O Papa Leão XIV identifica aquilo a que chama “uma verdadeira mudança de paradigma” no discurso público: um inquietante renascimento da guerra enquanto instrumento da política internacional, acompanhado pela erosão dos próprios princípios éticos que outrora limitaram o seu uso. Os algoritmos, argumenta ele, não são aceleradores neutros. “Privilegiam o conflito e a confrontação”, condicionando gradualmente as populações a aceitarem a violência como algo normal, até inevitável. Combinado com aquilo a que chama “uma desconcertante perda da memória histórica”, à medida que desaparecem as testemunhas directas do Holocausto e das duas Guerras Mundiais, a encíclica adverte que “as decisões políticas correm o risco de ser tomadas apenas com base na força, sem qualquer consideração pelas consequências de longo prazo”.

Uma passagem em particular suscitará controvérsia significativa: a encíclica declara que a teoria da guerra justa “tem sido demasiadas vezes utilizada para justificar qualquer tipo de guerra” e encontra-se hoje ultrapassada. Os críticos aproveitar-se-ão disto, mas existe necessidade de um debate sério e erudito sobre a questão. Os princípios afirmados no Catecismo da Igreja Católica, aprovado por São João Paulo II, continuam válidos. O Papa, porém, preserva explicitamente “o direito à legítima defesa no sentido mais estrito”, e o seu argumento parece mais empírico do que doutrinal. O quadro conceptual........

© Observador