Que o dia seja generoso
Este ano faço cinquenta anos e ainda estranho um pouco escrever esse número. Não porque me pareça grande, mas porque números redondos têm a mania inconveniente de pedir balanços. Aos quarenta e nove ninguém exige que você compreenda o que fez da vida; aos cinquenta parece que devemos abrir um livro-caixa, separar acertos e erros e verificar se o saldo merece aprovação.
Não tenho a menor vontade.
Fiz escolhas que repetiria e outras que, vistas daqui, deixaria quietas onde estão. Também aconteceu muita coisa que não escolhi, e essa parte costuma desaparecer quando contamos nossa história, talvez porque seja mais confortável imaginar que fomos seus únicos autores. Não fomos. Há encontros, circunstâncias, gente que chega, gente que falta e uma quantidade considerável de improviso que depois chamamos de destino porque fica mais bonito.
Não me sinto velha. Meu corpo certamente tem informações sobre o tempo que passou e não pretendo discutir com ele sobre evidências, mas alguma coisa em mim continua fazendo planos com certo abuso de confiança. Quero escrever........
