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Chega de birra!

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03.05.2026

– Eu queeeeeero, eu quero, eu quero, eu quero! – a criança se esgoela, com a cara já lavada de lágrimas, e fios de cabelo suados colados na testa... e ninguém sabe o que fazer. Alguns julgam os pais por não estarem sendo repressores o suficiente (“Se fosse comigo, eu fazia assim. Se fosse filho meu, já tinha levado uns tapas... Porque quando os meus eram pequenos, ah, meu bem...”), outros ficam com piedade da criança (“Ele só quer o biscoito... Coitada, ela é pequena!”), há os que acorrem para ajudar com teorias (“É que ele está com sono, é que ela está com fome, é que ele entendeu errado, é que ele pensou que seria assim, é que, é que, é que...), e outros ainda – os próprios papais e mamães – ficam completamente aturdidos, como reféns da situação.

Bem, não seria temerário afirmar que existem alguns sofrimentos da infância que os adultos aprenderam a banalizar. E entre eles talvez nenhum seja tão comum, e tão mal compreendido, quanto a birra. A cena é conhecida por todos: a criança chora no mercado porque não ganhou um chocolate, grita no parquinho porque não quer ir embora, joga-se no chão porque lhe pediram que desligasse a televisão, esperneia porque perdeu um jogo, morde o irmão porque desejava um brinquedo, ou se escandaliza inteiramente diante de um simples “não”.

A repetição dessas situações já fez surgir, na cultura, uma espécie de resignação coletiva. “É fase”, costuma-se dizer; ou “toda criança faz birra”, “isso é normal”. E de fato, toda criança faz. O problema só começa quando essa constatação, que deveria trazer serenidade, passa a justificar uma perigosa passividade. Afinal, se a birra é apenas uma etapa inevitável do desenvolvimento, basta esperar que o tempo resolva tudo sozinho! Certo? Errado. Quero trazer algumas luzes sobre essa situação, para deslindar alguns entendimentos muito úteis – a todos, mas muito especialmente às mães e pais.

Talvez a primeira coisa que seja necessário compreender é que a birra não é, em si mesma, o problema: ela é o sintoma de um problema. E tratar apenas o sintoma raramente conduz a uma solução verdadeira. A tendência humana diante do desconforto é querer silenciar aquilo que incomoda. Quando a criança grita, os adultos sentem necessidade imediata de fazê-la parar. Querem que cesse o choro, que desapareça o escândalo, que a calma volte ao ambiente. Muitas vezes, toda a energia da família se concentra em “abafar” uma birra. Mas esse comportamento equivale ao de quem tentasse combater uma febre sem investigar sua causa. E a febre pode ter origens completamente distintas: uma virose, uma infecção bacteriana, um processo inflamatório grave... Diminuir a temperatura do corpo não significa necessariamente curar a doença. Da mesma forma, fazer a criança se calar não significa compreender o que está por trás daquela reação desorganizada.

A birra é uma linguagem imperfeita da infância. Ela surge quando a criança ainda não possui maturidade suficiente para lidar com certas tensões internas

A birra é uma linguagem imperfeita da infância. Ela surge quando a criança ainda não possui maturidade suficiente para lidar com certas tensões internas

Ora, a birra é uma linguagem imperfeita da infância. Ela surge quando a criança ainda não possui maturidade suficiente para lidar com certas tensões internas: a frustração, o cansaço, a fome, o excesso de estímulos, a dificuldade de transição entre as atividades, a incapacidade de expressar desejos ou limites, a sensação de impotência diante das próprias limitações etc. O que aparece externamente como uma desobediência é, muitas vezes, uma incapacidade de autorregulação.

A criança pequena ainda não governa plenamente a si mesma. Por isso, diante de situações relativamente simples para um adulto, ela pode experimentar verdadeiros colapsos emocionais. Quando um menino bate com a mão para destruir o jogo que ele perdeu, dizemos que ele “não sabe perder”; pois exatamente: ele ainda não sabe perder e, com esse gesto, está tentando lidar, de forma ainda rudimentar, com a experiência da derrota. A criança que se irrita porque não consegue encaixar uma peça de Lego enfrenta, naquele instante, o choque entre o desejo e a limitação das próprias........

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